Convivemos com a ciência e a tecnologia, bem como ouvimos falar muito em inovação. Porém, para que isso chegasse ao ponto que conhecemos hoje, um longo caminho foi trilhado por pessoas, como o doutor Diomário Antônio de Queiroz. E é por meio de sua trajetória pessoal e profissional que muitas contribuições foram proporcionadas a esse ecossistema no Estado de Santa Catarina.

O Blog da Unoesc lhe convida a dar um pulinho no passado e conhecer um pouco de uma realidade que, talvez, muitos nem sonham ter existido e, principalmente, entender o que foi necessário fazer e o que ainda é preciso, em termos de ciência, inovação e tecnologia.

O relato se inicia em 1959, ano da formatura de Diomário no Ginásio Frei Rogério em Joaçaba. Por não haver alternativa local para frequentar o curso científico de nível médio, ele precisou então se matricular em Blumenau, como aluno interno do Colégio Santo Antônio, onde chegava de ônibus após viagem de três dias. Na despedida, sua mãe, Professora Dulce Fernandes de Queiroz, questionava entre lágrimas: “Quando será que os filhos de nossas famílias não precisarão viajar tão longe para ter acesso à educação de qualidade?” Este sonho foi realizado ao longo dos últimos 70 anos!

Em 1961, no curso científico do Colégio Santo Antônio formaram-se apenas 11 alunos! Dois eram de Joaçaba: Adgar Bittencourt e Diomário. As grandes distâncias e os altos custos da educação tornavam extremamente seletivo o acesso ao ensino de nível médio. E essa condição era ainda mais acentuada para o ingresso em curso universitário. Em 1962 Diomário matriculou-se como calouro de Direito na turma de implantação da Universidade Federal de Santa Catarina. A UFSC totalizava 847 alunos e 49 docentes, agrupando sete faculdades isoladas. Esses números representavam toda a educação superior em nosso Estado!

Professor Antônio Diomário de Queiroz durante uma de suas apresentações no Circuito Unoesc de Inovação.

Em face às mínimas possibilidades de pós-graduação no Brasil nos anos 1960, e tendo sido contemplado com bolsa de estudos pelo governo da França, Diomário doutorou-se em Economia do Desenvolvimento, de 1967 a 1971, pela Universidade de Paris–Sorbonne. Esse doutorado solidificou a percepção de que “Desenvolvimento é o processo de transição de determinada estrutura econômica e social a outras estruturas que possibilitem um nível mais elevado das forças produtivas.” Para que essa sonhada transição viesse a ocorrer no Estado de Santa Catarina, com melhoria da qualidade de vida de toda a população, tornava-se fundamental um processo sustentável de desenvolvimento baseado em novos conhecimentos decorrentes da educação, ciência, tecnologia e inovação. No impulso empreendedor, o conhecimento, fator determinante para a criação de valor na sociedade contemporânea, se dá nas pessoas, e, portanto, o acesso à educação proporciona distribuição justa de renda e inclusão social.

Esses conceitos foram determinantes em toda a vida profissional de Diomário, como enunciou enquanto Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina: “A Universidade tende a ser cada vez mais aberta e solidária, ter compromissos sociais, perseguir a qualidade de vida da população como parte ativa do processo de desenvolvimento, gerando conhecimentos e atuando em conjunto com os demais parceiros para a solução das grandes questões regionais e nacionais. ” Daí a luta para serem cumpridos no Brasil, e em especial em Santa Catarina, os compromissos constitucionais com a Ciência, Tecnologia e Educação. A UFSC situava-se em Florianópolis e o Sistema Acafe implantara importantes cursos universitários nas principais regiões do Estado. Criou-se, então, o Fórum da Educação Superior de Santa Catarina para fortalecer a convergência das ações do conjunto das instituições universitárias na direção do desenvolvimento sustentável. Enquanto Reitor da UFSC, ele abriu a Rede de Ciência e Tecnologia (RCT) às instituições educacionais e de pesquisa, e como Presidente da Fapesc promoveu o acesso à rede para todos os estudantes e pesquisadores catarinenses.

A identidade de princípios prevaleceu também no exercício das funções de Secretário de Estado da Educação, em sintonia com o Secretário Jacó Anderle, na luta por “um sistema de educação de qualidade para todos os catarinenses, integrado e articulado em todas as modalidades de ensino, num processo de aprendizagem aberto e comprometido com o social, no qual, mais do que instruir se educa o cidadão, estimulando sua criatividade e seu espírito crítico, no contexto da pesquisa e das relações comunitárias, para construir uma vida e um mundo melhores.”

Para institucionalizar, integrar e fortalecer um Sistema Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação em Santa Catarina, foi então desenvolvido extraordinário esforço institucional de integração de agentes do governo, do sistema empresarial e das instituições educacionais, por meio das Conferências Estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação. Formulou-se a Política Catarinense de Ciência, Tecnologia e Inovação enquanto “síntese do passado de trabalho competente de muitas pessoas e instituições e, ao mesmo tempo, o desafio estratégico que une governo, academia, agentes econômicos e sociais, visando à qualidade de vida dos habitantes e ao desenvolvimento de Santa Catarina, com sustentabilidade ambiental e equilíbrio regional.” Aprovou-se a Lei 14.328, de 15 de janeiro de 2008, Lei Catarinense da Inovação, a qual dispõe sobre incentivos à pesquisa científica e tecnológica e à inovação no ambiente produtivo no Estado de Santa Catarina, para promover a capacitação em ciência, tecnologia e inovação, o equilíbrio regional e o desenvolvimento econômico sustentável.

O Sistema Estadual de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação passou por constante fortalecimento e crescimento. Em 2008 as matrículas nas instituições de educação superior em Santa Catarina ultrapassaram 300.000, sendo um pouco mais da metade do Sistema Acafe e outros 100.000 das instituições particulares de ensino, dentre elas o Sistema Senai, com cursos superiores de tecnologia em importantes modalidades. Destaca-se recentemente a disseminação da educação superior, com a interiorização dos campi da UFSC e da Udesc, bem como a criação dos Institutos Federais e da Universidade Federal da Fronteira Sul. Nos últimos 10 anos as matrículas continuaram em expansão a um crescimento médio anual próximo de 5%, conforme Censo da Educação Superior do Inep, com presença destacada da educação a distância. Contribuiu para isso a possibilidade de acesso à Rede de Ciência e Tecnologia (RCT) em todo o território catarinense. Por outro lado, a Fapesc ampliou recursos para os programas de desenvolvimento regional e arranjos produtivos locais, com fundamental participação da Epagri e Embrapa. Foram promovidos diversos programas estratégicos, a exemplo da valorização do carvão catarinense, Aquífero Guarani, inventário florístico florestal, e beneficiadas diversas áreas de pesquisas fundamentais, como saúde, informática e ciências sociais.

Abriu-se importante chamada pública de apoio a projetos de C&T&I para o desenvolvimento sustentável das Secretarias Regionais do Estado de Santa Catarina, com relevantes impactos ambientais e econômicos para a sociedade local. Promoveu-se a implantação e a expansão de parques tecnológicos e incubadoras empresariais em várias regiões, com o processo de criação de empresas inovadoras apoiado pelo Programa Sinapse da Inovação concebido pela Fundação CERTI. Essa Fundação liderou também a consolidação da incubadora de empresas Celta, a implantação do ParqTec Alfa e do Sapiens Parque em Florianópolis. No âmbito do governo estadual, implementou-se recentemente o Programa Catarinense de Inovação (PCI), tendo como eixo central a implantação e a consolidação de 11 centros de inovação para articulação de políticas, projetos e ações de inovação em regiões de reconhecida competência em pesquisa e desenvolvimento, inclusive Joaçaba e Chapecó.

Na vertente empresarial, a organização sistêmica para estímulo à Ciência, Tecnologia e Inovação foi liderada pela Fiesc e pela Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (Acate), visando estrategicamente “transformar conhecimento e ideias criativas em empreendimentos de sucesso.” Sob a liderança do Engenheiro Rui Gonçalves, essa Associação estruturou, desde 2010, o empreendedorismo inovador em verticais representativas dos setores de educação, saúde, energia, telecomunicações, games, segurança, têxtil, governo e agronegócios, com abrangência estadual. Também a favor de uma educação transformadora, Glauco José Corte presidiu a Fiesc com a convicção de que “Investir em educação reduz desigualdades sociais e que, na indústria, promover a educação do trabalhador não é só questão social, mas iniciativa estratégica para a competitividade.”

As oportunidades de acesso ao ensino de qualidade em seus diversos níveis e modalidades alcançam, atualmente, todas as regiões de Santa Catarina. As exposições dos quadros da evolução das matrículas nos diversos níveis e modalidades de ensino, pesquisa e extensão no Oeste e Meio-oeste apresentadas ao longo do Circuito Unoesc de Inovação demonstram com fundamento essa renovada realidade.

Certamente teria sido possível avançar ainda mais longe nessa direção se o Estado de Santa Catarina houvesse cumprido integralmente, ao longo dos anos, o compromisso da Constituição Estadual de 1988, consubstanciado na Lei Catarinense de Inovação, de destinar especificamente à Fapesc e à Epagri 2% da receita líquida do orçamento de Santa Catarina para fomentar o desenvolvimento regional com base na educação, pesquisa científica e tecnológica! Lamentavelmente outra é a verdade: diante da crise, os recursos do Estado têm sido prioritariamente utilizados para cobrir a folha de pagamento do serviço público, muitas vezes burocrático, superdimensionado e ineficiente, em detrimento desse compromisso constitucional!

Torna-se fundamental assegurar sustentação à continuidade e ao pleno funcionamento do Sistema de Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação de Santa Catarina, que constitui um caso extraordinário de sucesso na promoção do desenvolvimento sustentável!

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