Como profissional de saúde, o profissional farmacêutico está na linha de frente no enfrentamento à Pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19). Ele desempenha dois papéis importantíssimos. O primeiro está ligado ao cuidado às pessoas sintomáticas que tiveram a infecção pelo Covid-19. Este é o papel que conseguimos visualizar. No entanto, há um segundo que é determinante: o profissional farmacêutico é um dos principais pesquisadores frente aos novos fármacos para minimizar os efeitos desagradáveis que o vírus traz, principalmente no desenvolvimento da vacina. Ou seja, é um profissional que atua tanto na promoção da saúde quanto na questão curativa da pandemia e de outras doenças. Quem nos traz estas e outras informações é o coordenador do curso de Farmácia da Unoesc São Miguel do Oeste, professor Everton Boff. De acordo com ele, a pandemia trouxe muitas alterações na prática profissional:

 

Principalmente para quem está em farmácia de cunho comercial, farmácias do Sistema Único de Saúde (SUS) e farmácias hospitalares. Primeiro, por se tratar de um serviço essencial, segundo, porque é necessário também se prevenir – como indivíduo, como cidadão e como profissional. Percebeu-se então que, além de toda a função do farmacêutico, nessas três frentes, teve toda uma situação de novos cuidados, nova dinâmica epidemiológica.

 

O professor Everton conta que, com a obrigatoriedade do uso de máscaras, as doenças de inverno caíram muito neste ano, principalmente a gripe comum. Houve uma grande demanda por medicamentos utilizados de forma preventiva, como os polivitamínicos. E, claro, velhas soluções caseiras, como o Bálsamo Alemão e a Gratia Probatum, dois medicamentos à base de Vitamina E. Os Equipamentos de Proteção Individual (EPI), principalmente luva e máscaras, e o álcool 70% – vendido em forma de gel ou líquido são produtos que chegaram a faltar no mercado, mas depois o abastecimento foi regularizado.

 

Temos que tomar muito cuidado com as Fake News sobre a eficácia deste ou daquele medicamento (fármaco). Hoje nós não temos a comprovação científica de muitos fármacos que popularmente estão sendo usados para o Covid-19. Os médicos e outros profissionais de saúde têm feito testes, conforme o histórico de cada paciente, e obtido resultados bons e ruins. Mas muita gente tem corrido às farmácias atrás de medicamentos de uso comercial, como o Annita e a Ivermectina, além da Cloroquina, que é utilizada pelos serviços públicos de saúde, para combater doenças infecciosas e a Hidroxicocloroquina, que  é facilmente encontrada por ser utilizada contra males como Artrite Reumatóide, associado a doenças autoimunes. Mas a sua eficácia contra a Covid-19 ainda não foi comprovada.

 

Diante do atual cenário, há uma ansiedade muito grande para que finalmente seja lançada uma vacina eficaz contra o vírus que tem levado muitas vidas no mundo todo. E o professor da Unoesc São Miguel do Oeste nos conta que os testes têm acontecido em um tempo nunca antes visto. Estão em andamento 141 pesquisas diferentes para o desenvolvimento de vacinas, em diversos países. Todas estão na terceira fase. Depois dessa, o produto passa para a quarta, que é a disseminação em larga escala.

 

Estão praticamente “saindo do forno”. O “tempo correto”, ou o que nós estamos acostumados, para que vacinas e outros medicamentos cheguem ao mercado, é um tempo que gira em torno de oito a doze anos. No entanto, os testes para as vacinas que visam o combate ao Novo Coronavírus estão acontecendo em menos de um ano. Nunca, na história da humanidade, se teve o desenvolvimento de algo tão rápido. De alguma forma, estamos falando de uma pandemia que está comprometendo não só a saúde, mas também outras questões, como sociais, econômicas e emocionais. Tudo isso tem feito a pesquisa ser acelerada.

 

Antes de ser lançada em larga escala, o laboratório tem uma grande responsabilidade, e a pesquisa deve avançar por quatro fases. Antes de tudo, existe a fase pré-clínica, que é desenvolvida em duas etapas:  a pesquisa in vitro é feita no laboratório, onde se testam diversos reagentes. Depois disso, a vacina é testada em animais de laboratório. O coordenador do curso de Farmácia nos informa que, por questões bioéticas, utiliza-se o mínimo possível de animais, minimizando também o sofrimento animal. Depois destas duas fases, passa-se então para a fase clínica, onde os testes são feitos finalmente em humanos. Primeiramente, é testado em humanos saudáveis. É uma fase arriscada, onde se utiliza entre 20 e 80 voluntários. No Brasil, tem que ser voluntários, não podem ser pagos. Existem países que pagam. A segunda etapa com humanos, o teste é realizado já com pessoas doentes (100 a 300 voluntários).

 

Quando é para medicamento, a gente acredita que a fase dois é mais importante que a um. Mas estamos falando em vacinas. Então, nos interessa que os pacientes não adoeçam, por isso a fase um é mais importante. Chega-se, então na fase três, onde passa a ser testada uma grande parcela da população. Nesta etapa, leva-se em consideração questões raça, cor, idade, sexo, variação hormonal, outras comorbidades – como diabetes, hipertensão, hipotiroidismo -, uso de medicamentos concomitantes com a vacina.

 

Mas o que diferencia uma vacina da outra? São várias as considerações que devem ser feitas, de acordo com Everton Boff. O tempo que a pessoa vai permanecer imune e os efeitos colaterais que ela possa ocasionar. Estes parecem ser os principais pontos a serem levados em consideração.  A Universidade de Oxford está testando, hoje, 51 mil indivíduos no Brasil, na África e nos Estados Unidos, na terceira fase do desenvolvimento da vacina. Porém, um fato causou polêmica: um dos voluntários que testaram a vacina foi acometido de uma encefalopatia. Porém, uma auditoria externa descobriu que não há relação com a vacina.

 

Qualquer medicamento pode gerar reações adversas. Não existe um fármaco isento disso. As vacinas que o Brasil já se comprometeu em adquirir, tanto de Oxford quanto da China, são de grande segurança. O Laboratório Farmacêutico Sanofi, ligado à universidade inglesa, prevê a transferência de tecnologia para o governo brasileiro, para que ela possa ser reproduzida, através da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O governo brasileiro já comprou dois lotes, cada um com 15 milhões de unidades da vacina. E temos a autorização para a produção de outras 70 milhões de unidades. Atingiríamos, com isso, a metade da população brasileira, vacinadas gratuitamente.

 

Por traz de uma vacina existem pesquisas. E quando se fala em imunologia, ou em medicamentos e vacinas, o profissional farmacêutico é quem está mais envolvido nestas pesquisas. E, normalmente, elas saem de laboratórios farmacêuticos das grandes universidades. Além da questão preventiva, existem hoje, de acordo com Boff, pesquisas sobre medicamentos que visam minimizar os efeitos danosos do Covid-19, enquanto o indivíduo estiver com a infecção instalada, bem como as consequências posteriores à infecção. O profissional farmacêutico, ele está envolvido tanto nas questões preventivas quanto nas questões curativas, de novos medicamentos.

Everton diz que, para sairmos desta pandemia, dependemos destas vacinas. Ele costuma dizer aos alunos, em sala de aula, que o tratamento não pode ser pior que a doença. Então, a vacina precisa trazer uma minimização ou até a eliminação deste mal. Ele não aposta na eliminação, imagina que nós teremos que conviver com o vírus. É algo nunca visto. Mas considera um fato histórico a vacina estar sendo desenvolvida em menos tempo, quando o normal é levar entre oito a doze anos para produzir.

 

A vacina mais eficaz será aquela que imunizar por um tempo maior e com menos efeitos adversos. Se as vacinas em teste estão chegando na fase quatro, é porque está tendo o aval do laboratório e do meio científico, além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) também dará o seu aval para a utilização da vacina a ser credenciada.

 

Hoje, o Brasil tem acordo com o Laboratório Sanofi, ligado à Universidade de Oxford, que inclusive está realizando testes em cinco mil brasileiros voluntários. Em outro acordo, para a vacina chinesa, outros nove mil brasileiros participam dos testes como voluntários – nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e no Nordeste. A torcida é para que a vacina saia o mais rápido possível, pois, como nos diz o professor:

 

A gente só vai sair deste estado de pandemia com a vacina.

 

Deixe seu comentário pelo Facebook