A perda da rotina diária, da liberdade de ir e vir, o falecimento de amigos ou familiares, o medo de contrair o Novo Coronavírus (Covid-19), tudo isso ocasiona fobias, tristeza, solidão, e claro, aumenta a ansiedade. Para conseguir passar pela pandemia e ainda manter a saúde mental, faz-se necessário o acompanhamento psicológico especializado. Fizemos esta constatação em conversa com coordenadores do curso de Psicologia e com os responsáveis por este serviço de atendimento na Unoesc Joaçaba, Videira, São Miguel do Oeste, Pinhalzinho, Xanxerê e Chapecó.

A professora Ana Paula Rosa, de Joaçaba, relata que estudos sobre implicações na saúde mental em decorrência desta pandemia ainda são escassos. Com o fechamento de escolas e universidades, trabalho remoto, distanciamento social de idosos e grupos de riscos, perdeu-se a sensação de liberdade bem como o senso temporal. A impressão que se tem, a partir do isolamento social, é o de se estar confinado. Aliado a isso, o sofrimento de ter que se afastar de familiares, provoca diminuição das conexões face a face e das interações sociais rotineiras. A informação, neste sentido, é muito importante para esclarecer e orientar, entretanto, ela observa o excesso e a disseminação de fake news, o que deixa as pessoas sempre em alerta, aumentando a angústia e o sofrimento. A difusão de mitos gera dificuldade na população no entendimento das orientações das autoridades sanitárias.

 

 

 

“O medo é outro fator que gera angústia, e durante a pandemia os principais medos relatados por pacientes na clínica escola são: medo de contrair a doença, de contaminar outras pessoas de ter que se afastar dos familiares, de morrer, além de preocupação com o tempo de duração da epidemia. Quando esse excesso de preocupação, atrapalha a nossa rotina, pode ser considerado um distúrbio de ansiedade”.

 

 

 

 

 

 

Em Videira o professor Adriano Schlösser nos conta que, para contemplar os estagiários que realizam atendimentos externos e seriam prejudicados pelas questões do isolamento, buscou-se o diálogo com instituições que necessitavam deste suporte psicológico. Em alguns locais o retorno não foi presencial, mas os acadêmicos puderam desempenhar as suas funções através do desenvolvimento de materiais de apoio, em formato de texto e vídeo, prestando o atendimento, excepcionalmente de forma não presencial.

 

 

“A estratégia de extensão pensada pelo corpo docente do curso, em parceria com a Secretaria Municipal e Estadual de Educação, foi a produção por parte dos acadêmicos, de vídeos de curta curta duração para estudantes de três faixas etárias distintas (seis a nove, dez a 14, e acima de 15) sobre Saúde Mental, sentimentos predominantes em isolamento social, e estratégias para lidar com tais sintomas.  Ao todo, foram produzidos oito materiais, podendo ser acessados por aproximadamente 12 mil alunos, permitindo assim a contribuição da psicologia para a comunidade”

 

 

 

 

 

O professor Álvaro Cielo Mahl, de Pinhalzinho observa o contexto de restrições e inseguranças, incertezas relacionadas ao novo coronavírus, como as perdas, tanto no trabalho, na educação e nas relações sociais:

 

 

 

 

 

“Tudo isso vai impactando as pessoas atendidas, com observação de muita demanda de ansiedade, nervosismo, solidão. Além disso, situações de pessoas que já tinham demanda de saúde mental e com este cenário foram se agravando.”

 

 

 

 

 

 

Em Xanxerê, João Paulo Orço observa que certos pacientes demonstraram agravamento em quadros de ansiedade. Especialmente aqueles que convivem com pessoas do grupo de risco, mas que não têm condições de permanecer em isolamento também apresentam maior tendência a vivenciar a ansiedade mais intensamente.

 

 

 

“Atualmente temos duas restrições em relação aos pacientes: os que estão situados num grupo de risco (maiores de 60 anos e pacientes com enfermidades relacionadas ao agravo do quadro em caso de Covid-19) e crianças menores de 10 anos, estas por serem potenciais vetores para a transmissão do vírus, uma vez que sessões infantis comumente demandam o manuseio de diversos brinquedos e materiais. Com o fim ou a estabilização da pandemia, esperamos ter a segurança para afrouxar estas restrições, além de retomar o atendimento de quatro pacientes por acadêmico”

 

 

 

Atendimentos Psicológicos

 

Considerando as normativas do Conselho Regional e Federal de Psicologia os estágios foram suspensos, e para garantir a manutenção dos atendimentos, a Unoesc São Miguel do Oeste e a Unoesc Pinhalzinho desenvolveram o Projeto Conexões, iniciativa envolveu nove profissionais diplomados do curso trabalhando de forma voluntária em plantões psicológicos on-line. Em Pinhalzinho foram dez atendimentos. E em São Miguel do Oeste foram 11 atendimentos de forma virtual, sendo que destes, cinco são acadêmicos, segundo a professora Lisandra Antunes de Oliveira.

 

 

 

 

 

“Três dos atendimentos iniciados pelo Projeto foram encaminhados para atendimento presencial com os estagiários, com o retorno das atividades da Clínica de Psicologia, um deles permaneceu em atendimento com a profissional voluntária, os demais informaram ter sido suficiente os atendimentos realizados”,

 

 

 

 

A Clinica de Psicologia da Unoesc Joaçaba atendeu, entre maio e julho, aproximadamente 228 pacientes, sendo 695 atendimentos psicológicos; 78 entrevistas de triagem; 12 encontros de grupo terapêutico; 107 atendimentos em auriculoterapia, totalizando 892 atendimentos aproximadamente.

Entre 17 de fevereiro e 15 de março, antes do primeiro decreto do governador Carlos Moisés, que determinou o isolamento social, o Serviço de Atendimento Psicológico (SAPsi) da Unoesc Videira atendeu 42 pacientes. Depois disso, entre 08 de junho e 02 de agosto foram outros 40 atendimentos, sendo que destes, foram 27 novos casos e 13 pacientes em acompanhamento. Neste período de retorno, optou-se pelo não atendimento dos pacientes com idades abaixo de 8 anos e acima dos 60, considerando-os como grupos potencialmente de risco.

O Serviço de Atendimento Psicológico da Unoesc Xanxerê e Xaxim atenderam somente a comunidade durante este período. Foram realizados até o dia 03 de agosto, cerca de 60 atendimentos para 15 pacientes em Xanxerê e 80 atendimentos para 20 pacientes em Xaxim. Considerando a segurança dos pacientes e também dos acadêmicos operou-se em capacidade reduzida. Enquanto antes da pandemia um acadêmico atendia até quatro pacientes, hoje estamos limitados a um paciente por acadêmico.

A Unoesc Chapecó realizou 58 atendimentos psicológicos presenciais para a comunidade durante a quarentena. Além destes, foram realizados cinco grupos operativos semanais que atingiram 40 pessoas de forma online. Também foram realizados vídeos para a Rede de atendimento a infância e adolescência (RAIA), com temas da psicologia10, atingindo 100 pessoas. Somados a isso, foram realizados 20 atendimentos via telefone pela psicóloga técnica do SAP. A professora Karine Schwaab Brustolin revela:

 

 

 

 

 

 

“Os principais males relatados dizem respeito ao medo da população diante da pandemia e as incertezas que assolam este período, com preocupações com entes queridos, trabalho e situação financeira. São relatados sintomas depressivos e ansiosos”.

 

 

 

De acordo com a professora, todas essas mudanças, além do medo de ficar doente, ou perder alguém, podem gerar sintomas como tristeza, solidão e ansiedade, pois é uma situação totalmente nova para todos. E a explicação para estes males pode ser dada pela perda da rotina que era vivida até março, cancelando programações, aulas, escola das crianças, readaptações no trabalho, além de restringir o convívio social e com familiares.

Outro fenômeno foi observado pela professora Francielli da Costa, em São Miguel do Oeste: um número pequeno de pessoas buscou atendimento porque ele foi oferecido de forma online. Ela garante que este formato pode ter causado estranheza, pela questão da segurança e sigilo. Por outro lado, houve um retorno positivo por parte dos profissionais voluntários.  Em relação ao sofrimento psicológico, foram informados males como ansiedade, tédio, medo, angústia, incertezas, depressão, medo de morrer e dificuldades com pessoas de forma geral.

Devido aos cuidados de biossegurança, o fluxo do SAPsi, em Videira, não está em completo funcionamento. O professor Adriano conta que podem ocorrer cinco atendimentos simultâneos, mas esta demanda é diminuída, aumentando-se para 15 minutos o espaço de tempo entre cada início de consulta, para evitar aglomerações na sala de espera.

 

Desafios pós-pandemia

 

Em Videira, Adriano acredita que o principal desafio pós pandemia será a identificação efetiva das aprendizagens realizadas no período pandêmico, por meio das aulas mediadas por tecnologia. A partir desse diagnóstico, será necessária a retomada dos conteúdos, e posterior avanço.

Para Lisandra, o desafio, em São Miguel do Oeste, estará no medo das pessoas retornarem o atendimento por ser presencial e ter contato com as pessoas, gera muito receio neste período de pandemia, e o deslocamento dos pacientes acadêmicos que residem em outras cidades.

O luto das famílias que perderam entes queridos para a doença configura uma das maiores preocupações para o campo da psicologia pós pandemia, de acordo com João Paulo, de Xanxerê. Anderson nota, em Pinhalzinho, a necessidade e a importância dos cuidados com saúde mental, atreladas principalmente às questões emocionais e sociais.

Karine percebe que, em Chapecó, o primeiro desafio será aceitar a realidade e encarar que tivemos perdas. O ano não aconteceu como previsto, mas é possível aprendermos com tudo isso, é possível nos encontrarmos conosco, refletir, aproveitar o tempo que não tínhamos antes para nos cuidarmos e de quem convive na mesma casa. É possível aprender e estreitar laços, para que quando tudo passe, possamos viver ainda melhor.

Em relação à saúde, Ana Paula, de Joaçaba, ressalta que a ansiedade e a preocupação em contrair a doença pode provocar confusão entre os sinais que indicam a contaminação pela doença com outras sensações corporais. O atendimento psicológico durante a pandemia oferece o auxílio que muitas pessoas precisam para lidar com a montanha russa de sentimentos e emoções que enfrentamos.

 

 

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