A autora desta história, Cidiane Guisso, é moradora de Concórdia, filha de agricultores e descendente de imigrantes italianos. Graduada em Design Gráfico na Unoesc Videira, seguiu os estudos e especializou-se em Design Experimental na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – “pintura digital”, como ela mesma explica.  Designer, ilustradora e cartunista, ela produziu a primeira História em Quadrinhos (HQ) sobre a imigração italiana no Brasil que é totalmente escrita na Língua Vêneta falada no norte da Itália, na região do Vêneto. Até hoje os descentes destes imigrantes usam esta língua, principalmente no sul do Brasil.

A autora conta que pensou em desenvolver uma História em Quadrinhos ainda em 2015, mas naquele momento não pôde levar adiante a ideia porque tinha outras obrigações. Em 2018, então, começou a organizar os esboços iniciais do roteiro e da HQ. Durante o ano de 2020, dedicou-se totalmente à conclusão de I Fiołi de Ła Nostra Tera (Os Filhos da Nossa Terra), o que ficou pronto exatamente no dia 03 de agosto, realizando, assim, um antigo sonho.

Na verdade, eu criei esta História em Quadrinhos regional Vêneta porque eu tinha uma vozinha dentro de mim que me pedia todos os dias para que eu fizesse essa história – era um pedido que vinha do fundo da minha Anima (alma). Não foi nada fácil, porque eu fiz tudo sozinha: fui roteirista, ilustradora, pesquisadora, diagramadora, editora. Aliás, tive uma ajuda, que foi na tradução para a Língua Vêneta, feita pelo Fernando Zanella Meneghetti.

 

O tradutor nos conta que a língua é ainda mais antiga que a própria língua italiana, por isso ela não deve ser considerada um dialeto. A descendente de italianos conta que fazer uma história em quadrinhos sempre foi um desejo que guardou no seu íntimo. Desde que ganhou o seu primeiro gibi, aos dez anos de idade. E a cultura italiana sempre foi algo que lhe despertou curiosidade e admiração:

 

Eu achei aquele gibi a coisa mais linda. Então eu cresci, estudei na escola, onde eu nunca tive nada que falasse sobre a história e a cultura da imigração italiana. Com o tempo este despertar e o gosto pela cultura italiana veio naturalmente. Como eu sempre gostei de desenhar e gostava de história e cultura, então, desde 2012 eu já fazia tirinhas. Também fiz duas animações sobre os meus personagens, os seis que eu criei: o Luigi, a Rosa, o Giovani, o Pinduca e o Mimi. Então, eu sempre quis ter uma obra de arte minha.

 

 

 

 

A História em Quadrinhos I Fiołi de Ła Nostra Tera (Os Filhos da Nossa Terra) conta a trajetória de uma família de personagens italianos que saem do norte da Itália em busca de uma vida melhor no Brasil, onde eles enfrentam muitos desafios. Desta forma, Cidiane vai mostrando os aspectos culturais, linguísticos e históricos da imigração italiana no Brasil. Ela fala sobre a identidade do morador do oeste/meio oeste catarinense, do imigrante italiano.

 

 

 

 

Os meus amigos que moram na Itália comentam sobre a grande relevância que tem esse meu trabalho para os imigrantes, para os moradores da região do Vêneto. É um resgate da sua história e também da nossa. Fala de imigração, que é um traço forte da nossa gente, uma questão cultural, que está se perdendo. Os valores, as histórias e as tradições. A minha história ela é totalmente ilustrativa, na linguagem que os imigrantes italianos trouxeram para o Brasil. A nossa história é linda, encantadora e merece todo o respeito e valorização deste mundo.

 

A publicação está disponível para a comercialização há um mês e a divulgação está acontecendo via Instagram, pelas contas @cidianeguissoart  ou @ifiolidelanostratera. Outra forma para adquirir a HQ sobre a imigração italiana  é diretamente no site da Amazon. Cidiane conta que os amigos compartilham, comentam, as pessoas que adquirem a obra também tratam de fazer a publicidade.

 

Eu estou me sentindo bem feliz e realizada, porque era um sonho que eu tinha o qual eu consegui realizar. A repercussão está sendo positiva. Através dos compartilhamentos, as pessoas que gostam da cultura italiana acabam sentindo-se tocadas pela obra. já vendi o material para diversas cidades brasileiras: Porto Alegre, Santa Maria, Caxias do Sul Concórdia, Chapecó, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Espírito Santo, e estou com pedido para mandar também para a Itália. Os italianos da região do Vêneto, principalmente, estão bem felizes por eu ter feito esta obra que fala da imigração italiana no Brasil.

 

 

Cidiane Guisso fala que, apesar de ter demorado para acontecer, tudo se deu no momento certo, quando a experiência necessária para assumir esta história já estava amadurecida dentro de si. Segundo ela até mesmo o conhecimento da língua italiana se deu neste tempo. Ela se diz muito feliz porque conseguiu realizar o seu sonho ainda jovem, e a repercussão está sendo positiva.

 

Faz pouco mais de um mês que a HQ está impressa, e a vozinha que existe dentro de mim me agradece e bate palmas por eu ter feito este trabalho. O descendente de italianos se sente parte dessa história. É uma história tão sofrida, que mexe muito comigo e com todos os descendentes. Eles foram guerreiros, desbravadores, lutaram muito para ter uma vida melhor no Brasil. A minha história foi criada com muito carinho e amor, a história da imigração italiana me inspira todos os dias pra fazer coisas bonitas, desenhos, e dar continuidade a este trabalho.

 

Colonização Italiana em Santa Catarina

A colonização italiana no Brasil começou por Santa Catarina. O tema é polêmico, haja vista que já foi requerido este posto pelo município de Santa Teresa, no estado do Espírito Santo. Porém, em 2018, o historiador Paulo Vedelino Kons publicou uma Nota Técnica , enviada ao Congresso Nacional, informando que o título “Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil” pertence à Colônia Nova Itália, no município de São João Batista, em Santa Catarina, onde os imigrantes começaram a chegar ainda em 1836. Já no oeste catarinense, esta colonização é citada pelo historiador e professor universitário José Carlos Radin, em sua obra Italianos e Ítalo-brasileiros na colonização do oeste catarinense, publicado pela Editora Unoesc em 2001 (segunda edição), onde ele afirma:

 

A expansão capitalista no atual oeste catarinense deu-se principalmente a partir do final do século XIX e início do século XX. A construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, a atuação das companhias de colonização nas vendas dos lotes de terra e o consequente alijamento dos nativos do processo de ocupação regional, são exemplos disso. Nesse contexto aconteceram profundas mudanças no quadro socioeconômico da região, pois o processo migratório provocou, para sempre, alterações na sua história. É na dinâmica deste processo que situamos a migração de italianos e ítalo-brasileiros do Rio Grande do Sul ao Vale do Rio do Peixe e ao oeste catarinense.

(RADIN, 2001, p.99)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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