A lembrança das brincadeiras de criança traz sempre um sorriso espontâneo, uma saudade. Seja qual for a condição social em que se tenha dado, a hora de brincar é a hora de se divertir, de integrar com irmãos, primos, tios, vizinhos, amiguinhos da rua, do colégio. Ou um misto disso tudo. Algumas destas brincadeiras rompem com as barreiras entre as gerações e permanecem, com nomes diferentes, em formatos diferentes. Até que a geração seguinte a esqueça. Será?

A professora Elisabeth Baretta, coordenadora do curso de Educação Física da Unoesc Joaçaba e professora do componente curricular de Estudos da Recreação  do Lazer conta que, durante as aulas, ela fala aos alunos sobre os conceitos, as origens e as possiblidades de utilização dos jogos, das brincadeiras e dos brinquedos nos momentos de lazer e também sobre a aplicação em atividades recreativas.

 

Solicitamos aos alunos da primeira fase do curso que  conversassem com os seus pais ou os seus avós e perguntassem quais eram as suas brincadeiras na infância. Tem alguns jogos e brincadeiras que eles não conhecem e se os pais e os avós não nos passarem e se nós não passarmos pros nossos filhos ou sobrinhos, isso acabará se perdendo.

 

Este período em que permanecemos em isolamento social trouxe à tona uma série destas brincadeiras. Seja nas conversas, já que as famílias permanecem o dia inteiro em casa, juntas, ou sendo na própria prática, já que se precisa ter criatividade para passar o tempo. De acordo com a professora Beth, como é conhecida pelos alunos, as possibilidades de brincadeiras são diferentes para as famílias que moram em casas, com pátio ou um jardim, onde as crianças podem gastar as suas energias, ou aquelas famílias que moram em apartamento, onde os movimentos ficam reduzidos.

 

As famílias que moram em casas têm uma possibilidade maior de brincadeiras no quintal, no jardim, onde as crianças podem correr, andar de bicicleta, mexer na terra, brincar na grama.  Já as famílias que moram em apartamento, em um espaço reduzido acabam tendo mais dificuldades de lidar com as crianças em casa 24 horas por dia, e nesta situação de   resgatar algumas brincadeiras, alguns jogos da infância dos pais e avós, é possível variar as atividades, alterando a rotina, uma vez, que chegará o momento em que a criança já estará farta dos brinquedos que tem em casa.

 

Quando se tem crianças pequenas em casa, elas precisam do movimento e estão sempre aptas e ativas para fazer alguma coisa. Mas se os membros da família já são adolescentes ou adultos, fica mais fácil distraí-los com jogos mais tranquilos. E para todas as possibilidades, há sempre um jogo de cartas que se adéqua. Os pequenos gostam das cores do baralho e das figuras, e neste sentido costumam criar os seus jogos. Os maiores resgatam jogos como Pife, Canastra, Caxeta. Ou então Truco, Scopa, Bisca. Para quem não gosta de baralho, basta um papel e uma caneta. A partir daí já dá para jogar Stop, Pontinho, Jogo da Velha, Forca, e outras possiblidades. Elisabeth diz que os jogos tradicionais, da cultura popular, são brincadeiras que perpassam as gerações. De acordo com a professora, são saudáveis porque as tradições fazem parte de nossa cultura. É preciso que sejam repassadas para as outras gerações para não correrem o risco de se perderem ao longo do tempo.

 

A virada do ano, os festejos, a Páscoa, o Corpus Christi, o Carnaval – que é diferente em vários países, por exemplo. Tudo isso é parte das nossas tradições culturais. O envolvimento que os jogos trazem, ainda que as famílias sejam reduzidas, geram socialização e resgatam o estreitamento das relações afetivas, das afinidades, as empatias. O respeito e a própria ludicidade são reconquistados, no sentido de vivenciar momentos de criatividade, de liberdade, de fantasia, de imaginação. Estas brincadeiras são importantes para a aproximação das famílias.

 

Quem sabe a pandemia nos tenha proporcionado uma reflexão, um aprendizado sobre estes momentos de convivência familiar. Um resgate de coisas que podem estar sendo esquecidas e que são importantes em nossas vidas. Como por exemplo parar  por um momento para refletir, sentar no quintal de casa e tomar um sol, ficar olhando o movimento do outro lado da rua ou ficar contemplando a paisagem da sua janela.

 

Isso tudo é muito importante porque nós não estávamos mais fazendo isso pela loucura e pelo nosso dia a dia cada vez com mais afazeres. Esse momento de reflexão, de contemplação, de proximidade, de conversar com a família, de brincar com os filhos. O nosso trabalho é importante, sim… mas a convivência familiar, a nossa liberdade, e principalmente a nossa vida também é. Nós vamos voltar e voltaremos diferentes da pandemia. É o que esperamos.

 

Abaixo, selecionamos alguns relatos dos alunos da primeira fase do curso de Educação Física, que foram instigados a questionar aos seus pais e avós a respeito das suas Brincadeiras de Criança.

 

Minha mãe me contou que ela brincava com seus irmãos, que eram em oito, de Salve Bandeira. A bandeira era uma folha de bananeira e o objetivo era capturar a bandeira do time adversário. Brincavam também de Esconde-esconde. Na escola brincavam de Telefone sem Fio, onde um participante diz uma frase ao ouvido do outro participante e este deve repassar a frase conforme o que ouviu e o último fala a frase conforme o que entendeu. (SEDS)

 

 

 

Meu pai me contou que eles jogavam muitas coisas, a maioria na rua, com os amigos do bairro e com os irmãos e irmãs – eram seis.  As que mais jogavam era Pega-ladrão, Taco, na rua, com um pedaço de madeira e bolinha de tênis, Futebol de Rua, Pau de Sebo – uma brincadeira cujo objetivo era coletar o prêmio que ficava no alto de um pedaço de madeira descascada e para dificultar passava-se manteiga e óleo na madeira e o prêmio originava-se de uma coleta feita de porta em porta, de dinheiro ou guloseimas. (LFS)

 

 

 

 

Minha mãe relata que na sua infância brincava sempre de Ordens contrárias. Essa brincadeira funcionava com o professor deixando todos dispersos pela quadra e dando uma ordem, porém todos deveriam fazer exatamente o contrário que o professor mandasse, se alguma criança obedecer à ordem seria eliminado. O vencedor era quem não executava as ordens do professor. Já o meu pai relata que sempre brincava de Pega-corrente na sua infância. Essa brincadeira era executada com o professor ordenando que todos os alunos ficassem espalhados pela quadra. Sempre um aluno era escolhido para ser o pegador. Quando esse aluno pegasse outro ele deveria dar a mão ao colega e ajuda-lo a pegar, até todos serem pegos e assim formar uma corrente. (EM)

 

 

Em uma breve entrevista, meu pai relatou as brincadeiras as quais ele e seus amigos brincavam na infância: Índio (uma tribo contra outra) com arcos e flechas feitas com partes de guarda-chuva, pega-pega em cima das árvores, bolica (bolinha de gude), polícia e ladrão, essas foram as brincadeiras relembradas por ele. (SRMS)

 

 

 

Falando com a minha mãe, ela me relatou uma brincadeira que ela chama de “Cinco Marias“, que era realizada da seguinte maneira: Espalha-se cinco pedrinhas no chão, então pega uma pedrinha e joga para cima; antes que a pedrinha caia, rapidamente pegue outra pedrinha com a mesma mão que atirou a primeira e recupere a 1ª pedrinha ainda no ar (precisa ser bem rápido). Se deixar a pedrinha cair, perde a vez para seu parceiro. Jogue para cima as duas que estão em sua mão e tente pegar mais uma do chão antes que as outras caiam. Vá tentando aumentar o número de pedrinhas a cada jogada até pegar todos os cinco. (HLGA)

 

 

 

 

Minha mãe costumava brincar de esconde-esconde, pular corda, pular tábua, jogar peteca, andava de bicicleta e fazia Boneca com espiga de milho. Já meu pai tinha brincadeiras um pouco diferentes, ele brincava de taco, soltar pipa, esconde-esconde, jogava bola, e costumavam a fazer essas brincadeiras na rua, e como ele é do litoral, costumavam ir a praia e brincar de Pegar Jacaré. (AGLP)

 

 

 

 

 

 

As brincadeiras por eles relatadas são diferentes das quais eu brincava quando era pequeno. Meu pai relatou que as brincadeiras do seu tempo eram Salva Latinhas esta brincadeira poderia ser em grandes grupos, quando o pegador achava alguém ele pegava a lata e batia no poste dizendo 1-2-3-fulano. Para salvar todos, um dos jogadores que estava escondido precisava chegar até a lata antes do jogador, tirá-la do chão e bater no poste três vezes dizendo “Salve! Salve! ”  Outras brincadeiras por ele citadas são Perna de Pau; quando ia no sítio, tinha o hábito de arrancar folhas de cipó e descer de precipícios, Telefone sem Fio com latas, Forca e Stop. Sempre brincavam em grandes grupos. Em conversa com minha mãe, ela relatou que brincava de pular corda, e esta por sua vez era bem concorrida. Esconde-esconde, pega-pega, Caçador, peteca, fazer bacia, panelinha, chaleira de barro e deixava secando no sol, ficava lindo aqueles utensílios. Brincava de canoa, tirava dos coqueiros entrava dentro e deslizava pelo gramado abaixo. (VGB)

 

 

Todas as brincadeiras que eles relataram são com grandes quantidades de participantes, pois as famílias continham mais integrantes e nos fins de semanas todos os primos e vizinhos se encontravam. Meus pais quando pequenos brincavam de Passa-anel: o anel era deixado nas mãos de um dos participantes que estava no círculo, enquanto outro que estava de costas deveria ir para o círculo e tentar descobrir com quem estava o anel. Passavam horas do dia em um morro, aonde pegavam uma canoa, que é a capa da flor do coqueiro, sentavam em cima e escorregavam até embaixo. Outra era o Chave de Ouro, um participante era designado a ser o ”touro” e os demais ficavam de mãos dadas formando um círculo, eram feitas algumas perguntas para o touro, e assim que respondidas ele deveria tentar escarpar, ele forçava as mãos até achar os participantes mais fracos e conseguir sair do círculo. (DC)

 

 

 

 

Dentre as brincadeiras citarei as seguintes: Taco (betes):  era jogado por quatro jogadores, utilizando duas garrafas pet, dois pedaços de madeira formando os tacos, e uma bola. A regra do jogo era manter sempre o taco encostado no chão e dentro do buraco feito no chão. Se os jogadores estiverem com os tacos fora do buraco, ou sem encostar no chão, o adversário que estiver segurando a bolinha pode derrubar sua garrafa no chão ou “queimar” os jogadores com os tacos usando a bolinha e ganhar os pontos. Cama de gato: Duas pessoas jogam com um pedaço de linha amarrado, formando um círculo, utilizando a linha nas mãos para fazer várias formas até que chegue na última forma sem cometer erros. Pedra papel e tesoura:  é jogado por duas ou mais pessoas, não utiliza material somente as mãos.  Mão fechada significa pedra, dois dedos esticados significam tesoura, mão aberta o papel.  Quem joga deve estar com as mãos fechadas e após todos falarem juntos pedra papel e tesoura, devem esticar as mãos, revelando cada símbolo, sendo que cada símbolo anula um eliminando os jogadores. (PS)

 

 

 

 

 

Eles brincavam de Pinheque-pinheque, cada um colocava a sua mão em cima da outra, dando beliscões até chegar ao topo, dando vitória a quem conseguisse. Outra era corrente forte, enquanto uma pessoa ficava no meio com duas correntes amarrada nas mãos, os outros ficavam puxando até arrebentar, se eles não conseguissem arrebentar, dava direito a pessoa que estava no meio à fugir, dando início a brincadeira de pega-pega. (TMMR)

 

 

 

Conversando com minha mãe e com minha avó percebi que praticavam bastantes brincadeiras ainda presente nos dias atuais, porém menos frequentes, brincadeiras como: Pega-Pega, Esconde-esconde, amarelinha, Peteca, Pular Corda. E também outras brincadeiras menos conhecidas hoje como: Elefantinho Colorido, uma brincadeira que precisa bastante espaço e de no mínimo três crianças para que a brincadeira se torne divertida. A brincadeira começa com as crianças vão falando e-le-fan-ti-nho-co-lo-ri-do – sempre passando a bola a cada sílaba. A última criança que receber a bola fala o nome de uma cor. Todas as crianças correm para tocar um objeto com aquela cor e a última criança que tocar uma cor sai do jogo, até só restar um. (EJM)

 

 

 

 

Dentre essas brincadeiras, separei duas e pedi mais informações sobre as mesmas com as palavras dele. Ajuda-Ajuda: ”Era um pega-pega, só que o primeiro pegador, ia atrás das pessoas e quando pegava alguém, ela começava de mãos dadas com ele. Daí ia pegando e aumentando a “corrente” que continuava até pegar todos”. Rebatida: ”usava um gol apenas e dois times de duas pessoas. Um time começava defendendo e o outro chutando os pênaltis. Se tivesse gol direto valia 3 pontos. Se o goleiro rebatesse e depois sair o gol 5 pontos. Se batesse na trave e depois gol, 8 pontos. Se batesse no travessão e depois gol, 10 pontos. Se batesse no encontro das traves e depois gol, 12 pontos. Se o goleiro defendesse direto, 5 pontos pra eles. Cada jogador tinha 3 chutes, no final somava os pontos pra ver quem ganhou”.(AAPAB)

 

 

Um modo prático e fácil de brincar era com as cantigas de roda como Ciranda Cirandinha, tendo canções com letras simples de serem aprendidas. Nesta brincadeira, todos ficam posicionados em roda, cantando: “Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar! Vamos dar a meia volta. Volta e meia vamos dar. O anel que vós me destes era vidro e se quebrou. O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou. Por isso, dona (nome de um dos alunos) entre dentro desta roda diga um verso bem bonito diga adeus e vá se embora. ” Na última estrofe devem escolher um coleguinha para entrar na roda. A brincadeira segue até que todos os participantes estejam no meio. Estas brincadeiras podem ser vistas não apenas pela forma de trabalhar o corpo, mas também como forma de melhorar a interação social entre os integrantes, promovendo a integração social, praticando oralidade e ajudando a lidar com a timidez. (LECR)

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