Já estamos há dois meses (17 de março) vivendo em isolamento social, em Santa Catarina. E estar em casa tem significados diferentes para cada um. Em uma coisa, acredito que possamos concordar: foram atualizados os conceitos de tempo, trabalho, estudo. Estamos nos reinventando. E ao mesmo tempo precisamos conviver diariamente com números negativos, histórias de perdas, previsões pessimistas. É muita negatividade.

E pensando nisso, fui buscar se haveria poesia na Covid-19. E encontrei. A última postagem no Instagram do cantor e compositor Moraes Moreira, que morreu no dia 13 de abril, em decorrência de um infarto do miocárdio, aos 72 anos, foi justamente um poema, em forma de cordel, sobre a quarentena. Em sua homenagem e aos demais compositores, cantores, músicos, artistas vitimados pelo Novo Coronavírus, publicamos o seu poema.

 

 

Quarentena

(Moraes Moreira)

Eu temo o coronavirus
E zelo por minha vida
Mas tenho medo de tiros
Também de bala perdida,
A nossa fé é vacina
O professor que me ensina
Será minha própria lida

Assombra-me a pandemia
Que agora domina o mundo
Mas tenho uma garantia
Não sou nenhum vagabundo,
Porque todo cidadão
Merece mas atenção
O sentimento é profundo

Eu não queria essa praga
Que não é mais do Egito
Não quero que ela traga
O mal que sempre eu evito,
Os males não são eternos
Pois os recursos modernos
Estão aí, acredito

De quem será esse lucro
Ou mesmo a teoria?
Detesto falar de estrupo
Eu gosto é de poesia,
Mas creio na consciência
E digo não a todo dia

Eu tenho medo do excesso
Que seja em qualquer sentido
Mas também do retrocesso
Que por aí escondido,
Às vezes é o que notamos
Passar o que já passamos
Jamais será esquecido

Até aceito a polícia
Mas quando muda de letra
E se transforma em milícia
Odeio essa mutreta,
Pra combater o que alarma
Só tenho mesmo uma arma
Que é a minha caneta

Com tanta coisa inda cismo….
Estão na ordem do dia
Eu digo não ao machismo
Também a misoginia,
Tem outros que eu não aceito
É o tal do preconceito
E as sombras da hipocrisia

As coisas já forem postas
Mas prevalecem os relés
Queremos sim ter respostas
Sobre as nossas Marielles,
Em meio a um mundo efêmero
Não é só questão de gênero
Nem de homens ou mulheres

O que vale é o ser humano
E sua dignidade
Vivemos num mundo insano
Queremos mais liberdade,
Pra que tudo isso mude
Certeza, ninguém se ilude
Não tem tempo, nem idade.

 

 

 

 

 

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