Os personagens de Dostoiévski conquistam facilmente a empatia do leitor, por mostrarem de forma transparente a contraditória alma humana. Dessa forma, a sua narrativa habita entre o herói e o anti-herói. Mesmo 200 anos depois do seu nascimento, a obra de Fiódor Dostoiévski ainda é referenciada em diversas áreas do conhecimento. Crime e Castigo (1866), por exemplo, é utilizado frequentemente nos campos do Direito e da Psicologia criminal, assim como Os Irmãos Karamazov (1880) foi apontado como o maior romance de todos os tempos por Nietzsche e Freud, apresentando uma narrativa ao mesmo tempo filosófica e policial.

Fiódor Dostoiévski nasceu em Moscou, em 11 de novembro de 1821. Aos 22 anos, formou-se engenheiro na Academia de Engenharia Militar de São Petersburgo. Porém, abandonou a carreira militar para viver da sua produção literária. O reconhecimento veio logo no primeiro livro, Gente Pobre (1846), sendo elogiado por importante crítico literário daquela época. No ano seguinte, passou a integrar o Círculo Petrashevski, formado por intelectuais socialistas.

Prisão

Dostoiévski era contra a servidão de classe e defendia a revolução. Por esse motivo ficou preso por oito meses, em 1849. Depois disso, recebeu a sentença de fuzilamento. Porém, o czar concedeu-lhe o “perdão”. Na verdade, encontrou outra forma de puni-lo, ao mantê-lo por quatro anos na Sibéria, fazendo trabalhos forçados. A pena incluía também passar alguns anos trabalhando como soldado. Dessa forma, passou 10 anos longe da Rússia.

Literatura

A obra de Dostoiévski retrata comportamentos patológicos do ser humano, trazendo em suas linhas grandes tragédias, como assassinatos, suicídios, loucura e crimes. O autor também evidencia as camadas mais pobres da sociedade russa, abordando a miséria e as necessidades materiais mais proeminentes. Dessa forma, traçou um panorama rigoroso a respeito da realidade e do cotidiano daquela sociedade na segunda metade do século XIX. Tudo isso retratado por meio de um estilo de escrita que envolvia o fantástico, a sátira e a comédia.

O segundo romance de Dostoiévski, Crime e Castigo (1866) foi publicado na revista literária O Mensageiro Russo durante doze edições mensais ao longo do ano de 1866. Posteriormente, foi publicado em volume único. Ele conta a história de Raskólnikov, um estudante paupérrimo que perambula pelas ruas de São Petersburgo até cometer um crime, justificado pela teoria: “Grandes homens foram assassinos absolvidos pela História”. A obra levanta a questão se há justificativa para o assassinato. Para lembrar o bicentenário do escritor russo, o clássico Crime e Castigo está ganhando uma adaptação para Histórias em Quadrinhos (HQ), com ilustrações do francês Bastien Loukia.

Outro destaque entre os seus 23 livros de ficção, fora contos e outros textos, Os Demônios (1872) foi escrito com base em uma história real: o assassinato do estudante I. Ivanov pelo grupo niilista liderado por Sergey Nechayev. Ao fazer esse relato dessa história ocorrida em uma cidade do interior da Rússia, Dostoiévski apresenta os pensamentos social, político, religioso e filosófico da época, retratando a Rússia pré-Revolucionária, questionando o terror daqueles que querem “mudar o mundo”.

Sugerimos também a leitura de Noites Brancas (1948), uma reflexão sobre o amor, escrito antes da sua prisão. Essa história o aproxima do romantismo, pois retrata um homem sonhador. O título do livro se justifica pela ocorrência de um fenômeno conhecido como Noites Brancas, quando os dias são mais longos e claros em São Petersburgo.

Outro ofício de Dostoiévski era o jornalismo. Entre 1861 e 1863, foi editor da revista Tempo (Vremya), e, de 1864 a 1865, da Época (Epokha). Em 1873, foi redator do jornal conservador O Cidadão (Grazi Danin), no qual escreveu para a coluna O Diário de um Escritor.

Obras de Dostoiévski em Português

 Demorou 20 anos, mas a Editora 34 acaba de concluir a tradução de 23 livros do escritor russo, todos traduzidos do idioma original. Participaram deste projeto os tradutores Fátima Bianchi, Paulo Bezerra, Nivaldo dos Santos, Boris Schnaiderman, Lucas Simone, Vadim Nikitin e Priscila Marques. Abaixo, o link para cada obra:

Gente pobre (1846), tradução de Fátima Bianchi [2009]

O duplo (1846), tradução de Paulo Bezerra [2011]

A senhoria (1847), tradução de Fátima Bianchi [2006]

Noites brancas (1848), tradução de Nivaldo dos Santos [2005]

Niétotchka Niezvânova (1849), tradução de Boris Schnaiderman [2002]

Um pequeno herói (1857), tradução de Fátima Bianchi [2015]

A aldeia de Stiepantchikov e seus habitantes (1859), tradução de Lucas Simone [2012]

Dois sonhos: O sonho do titio (1859) e Sonhos de Petersburgo em verso e prosa (1861), tradução de Paulo Bezerra [2012]

Humilhados e ofendidos (1861), tradução de Fátima Bianchi [2018]

Escritos da casa morta (1862), tradução de Paulo Bezerra [2020]

Uma história desagradável (1862), tradução de Priscila marques [2016]

Memórias do subsolo (1864), tradução de Boris Schnaiderman [2000]

O crocodilo (1865) e Notas de inverno sobre impressões de verão(1863), tradução de Boris Schnaiderman [2000]

Crime e castigo (1866), tradução de Paulo Bezerra [2001]

Um jogador (1867), tradução de Boris Schnaiderman [2004]

O idiota (1869), tradução de Paulo Bezerra [2002]

O eterno marido (1870), tradução de Boris Schnaiderman [2003]

Os demônios (1872), tradução de Paulo Bezerra [2004]

Bobók (1873), tradução de Paulo Bezerra [2012]

O adolescente (1875), tradução de Paulo Bezerra [2015]

Duas narrativas fantásticas: A dócil (1876) e O sonho de um homem ridículo (1877), tradução de Vadim Nikitin [2003]

Os irmãos Karamázov (1880), tradução de Paulo Bezerra [2008]

Contos reunidos, tradução de Priscila Marques, Boris Schnaiderman, Paulo Bezerra, Fátima Bianchi e outros.

Organização de Fátima Bianchi [2017]

Crônicas de Petesburgo (1847) – tradução de Fátima Bianchi.

Coleção Cinco Grandes Romances de Dostoievski – tradução de Paulo Bezerra