Moda sustentável. Esta é a premissa da Look Green, start up que está incubada dentro do Polo Inovale, em Joaçaba. Sim, sei que é difícil fazer essa conta porque normalmente se ouve este termo ligado ao meio ambiente. Mas vamos lá, podemos tentar entender pelo sentido inverso, algo é insustentável. Estamos tirando os recursos e não os estamos devolvendo. E ainda não os utilizamos de forma adequada ou correta. Se ainda assim não está claro, vamos deixar para que a Ana Kantovick, proprietária da marca, nos explique.

 

Vamos pensar no sentido financeiro do negócio. A empresa não é pensada para ser econômica, para fazer o uso inteligente deste recurso. Há gargalos e um deles é o fato de não se fazer uma engenharia da produção. Porque é preciso pensar no que se produz e no custo desta produção. E, se a marca perde, ela deixa de crescer. Não crescendo, ela deixa de gerar emprego. Neste sentido, falamos de emprego, não da exploração do trabalho. Porque em casos em que a produção é terceirizada, se a pessoa que produz, por exemplo, a peça de roupas a R$1 (um real) e a empresa vende a mesma peça a R$500 (quinhentos reais), há um desequilíbrio, uma desproporção.

 

Ana vai nos conta que a ideia da Look Green é conectar pessoas a soluções, servindo como um Hub. Ela pensa em servir como um Market Place, da mesma forma como funcionam o Mercado Livre e a Amazon. Só que vendendo moda sustentável, desde abril de 2021. Estes produtos estão disponíveis no site da Look Green.

 

Eu trabalho com moda desde os 13 anos. Eu morava em Zortea, que é onde os meus pais moram até hoje – e a gente não tinha grana para comprar tecido. Zortea sequer tem loja do ramo. Trabalhava com a minha avó. Ela me dava as roupas velhas dela para eu desmontar e fazer outras coisas. Eu fazia do meu jeito. Como eu ainda não sabia costurar, desenhava a peça que eu queria e levava na costureira. Depois eu aprendi técnicas, fui aprimorando e criei a minha marca, a Gregória, que é o nome da minha avó.

 

Mas Ana queria que seu negócio prosperasse. Tinha ambições com a sua marca. Embora tivesse pedidos frequentes, queria mais. Em 2019 fez uma pausa e passou a pesquisar sobre outras marcas e participar de rodas de conversa, perguntava, tirava dúvidas, queria entender. Pelo envolvimento, passou a ser convidada para participar dos eventos. Fez isso por um ano. Depois disso, reuniu os materiais coletados e passou a estuda-los. Assim, descobriu que todas as empresas tinham pontos em comum. Então ela entendeu que o problema não estava nela, mas no mercado.

 

Listei, então, as dificuldades que eu tinha e comecei a levar nas empresas e perguntar se eram estes os problemas. Então eu entendi que os problemas eram o fato de não conseguir conversar com outra marca, o que era difícil, pela falta de conexão. Eu não conseguia encontrar o consumidor que estava apto a comprar, não conseguia encontrar o fornecedor. Tudo era um grande problema de conexão. Aí começamos a desenhar como é que resolveríamos isso. No início era só uma planilha com todos os dados. Mas eu não queria só fazer uma planilha, queria resolver o problema do mercado. Até que nós chegamos no modelo do Market Place. Em 2020 nós trabalhamos neste protótipo e em 2021 chegamos ao modelo final do Market Place.

 

O grande diferencial da Look Green é não vender qualquer produto. E nisso ela se diferencia dos outros Market Places mais conhecidos. A empresa interessada em vender o seu produto pela Look Green precisa cumprir requisitos e passar por um processo de avaliação. É preciso fazer um pré-cadastro, seguido de uma avaliação criteriosa sobre o fato de a empresa ser sustentável. Neste passo, a equipe técnica de avaliadores atribui uma pontuação. A empresa interessada ainda precisará responder a algumas perguntas até chegar à pontuação final e ser aceita – ou não.

 

Moda Sustentável

Ana apressa-se em dizer que é uma moda que não agride o meio ambiente, que se preocupa com o que acontece na sociedade, com questões como gênero, identidade, raciais, com o impacto que ela causa como mercado. É uma moda que cria estruturas mercadológicas para que funcione a longo prazo.

 

Um dos princípios da economia sustentável é a economia circular, que prevê que o produto tenha uma vida mais longa, que as coisas sejam melhores aproveitadas. Essa solução pode ser pensada já no design do produto. Hoje, a produção é linear, ou seja, tudo que se cria está fadado a ser descartado, simplesmente. Vai parar nos aterros sanitários, podendo atingir, inclusive os lençóis freáticos. O princípio da economia circular é que o ciclo se feche.

 

Porém, Ana reconhece que nem tudo pode ser reaproveitado, então, este é um problema de logística. A empresa precisa pensar em uma solução, é sua a responsabilidade pelo que produz e o destino final deste produto. É o que chamamos de logística reversa.

 

Não há uma legislação, no Brasil, que trate dos resíduos da moda, por exemplo. Nós acabamos por adotar a mesma que trata dos resíduos sólidos. Você só consegue obrigar uma marca a fazer a logística reversa se ela tem um mínimo de produção. Usando um número aleatório: se você produz um milhão de camisetas, a partir de 500 mil, você é obrigado a fazer a logística reversa. Se você não produz acima de 500 mil, não é obrigado. Então, isso só afeta empresas muito grandes. Se a tua empresa não chega a este patamar, fica sem legislação nenhuma.

 

Técnicas Sustentáveis

 

Uma das técnicas da moda sustentável se chama Upcycling, que é justamente o reaproveitamento de resíduo.  Uma pessoa que produz sobre esta técnica se conecta com uma marca maior, que tem resíduo para distribuir – essa que é a logística reversa – e ela vai usar isso que seria descartado para produzir o seu novo produto. Ou então ela pega peças que já existem, desmonta e cria coisas novas. Como se convencionou chamar de customização.

Outra técnica é o Slow Fashion, que é uma produção sob encomenda, nas medidas do próprio corpo, que só os antigos alfaiates. Tem muitas marcas que trabalham neste formato. É uma marca, mas ela não produz em escala. Ela produz sob medida, ela não tem estoque. Neste sentido, não tem ou reduz a perda.

Se nós formos pensar sistemicamente de onde vêm os resíduos hoje:  ele vem do descarte do ciclo final, quando as pessoas descartam no lixo comum – o que não deveria. Mas muito disso é a perda das próprias indústrias. Porém tem muita coisa que não tem o que fazer. Pode ser que o maquinário, por exemplo, usado pela indústria, ainda não tenha a condição de evitar o descarte.

 

O consumidor é muito mal informado sobre o descarte. Uma das metas da Look Green, e nós já iniciamos contatos com pessoas mais experientes nessa questão da moda sustentável, afim de preparar treinamentos, cursos, palestras, justamente para que o consumidor final comece a aprender sobre este assunto. As pessoas não compram porque não sabem que existe uma forma sustentável de consumir a moda. E, por outro lado, a indústria não mapeia e não incentiva – ou incentivava – que o consumidor tenha esse conhecimento. O sistema foi pensado para ser assim, porque é uma indústria que sempre foi dominada por grandes marcas.

 

 

Fashion Revolution

A pandemia fez mudar a consciência das pessoas. O desperdício passou a ser uma preocupação. As pessoas passaram a se preocupar com economia, precisaram aprender a economizar, perceberam que não precisam comprar muitas coisas.

 

Nós dizemos que a pandemia acelerou em cinco anos o nosso mercado. A nova geração é que está fazendo a diferença. Pessoas que tem entre 16 e 20 anos, que está entrando no mercado de consumo agora, começando a ser consumidor ativo. Então, ela comprava e consumia através dos seus pais, mas agora está entrando como consumidor ativo.  Fazem compras mais pela internet. Mas não é só porque é pandemia. Mas era um processo que já aconteceria normalmente. A pandemia acelerou o processo. As gerações mais novas também são mais preocupadas com estas questões que envolvem a sustentabilidade.

 

Ana fala que isso pode ser percebido nas redes sociais. Segundo ela, esta é uma geração que cobra muito mais, que bate na porta da marca. É uma geração que se preocupa com mais do que a marca diz. Não é uma geração que se contenta com discurso. Eles precisam entender o processo por trás. Ao mesmo tempo em que há um movimento da Organização das Nações Unidas (ONU) neste sentido. É um conjunto de fatores que nos levam para esta direção da sustentabilidade.

Existe um movimento mundial que se chama Fashion Revolution, que é o maior movimento nessa área, mas tem diversas ONGs que trabalham em prol deste tema. Por exemplo, a Fundação da Ellen McCarthur, que é uma fundação de uma marca que é sustentável. Além da marca, eles criaram uma fundação com o fim de fazer pesquisa a respeito da sustentabilidade. Essa fundação, ela tem muitos dados, a nível mundial. Inclusive estes dados da poluição que a moda representa.

Mas no Brasil, ainda são poucas pesquisas. Ana pensa que isso está fazendo bastante falta, para que as empresas da moda possam evoluir no sentido de se produzir matérias que sejam sustentáveis e possam fechar este ciclo de forma menos agressiva ao planeta. É neste ponto que age a Look Green. A meta da start up é impactar 50 milhões de pessoas em cinco anos, incentivando compras e atitudes sustentáveis.