Em fevereiro de 2020 surgem os primeiros casos de Covid-19 no Brasil. Em março já se decretava lockdown, ou seja, já se ordenava o fechamento de comércio, escolas, instituições públicas e privadas, e pedia-se para que as pessoas se mantivessem dentro de suas casas, evitando sair às ruas por qualquer motivo. Tudo isso para o controle do vírus que se tornava pandêmico. No mês de abril, a Organização Mundial de Saúde (OMS) alertava para os cuidados que se deveria ter para a não-proliferação do vírus. Tudo aconteceu rápido demais. E, na medida em que crescia o número de infectados, termos derivados do verbo cuidar, como “cuide-se” ou “cuide de quem você gosta” transformaram-se no mote da campanha global da OMS.

Nesse sentido, dentro do Programa de Pós-graduação em Direito da Unoesc surgiu a ideia de se fazer um podcast que pudesse abordar as diversas formas de cuidado, apresentando entrevistas que pudesse falar sobre estudos que refletissem a complexidade de uma pandemia.  A ele deu-se o nome de Cuidar, verbo Coletivo – disponíveis no Spotify e outras plataformas. Organizado pelas professoras (mestras e doutoras) Bruna Angotti e Regina Stela Corrêa Vieira, as dez entrevistas foram publicadas, em parceria com a |Editora da Unoesc, em formato de E-book. Cuidar, verbo coletivo conta com 7 capítulos – contando com a apresentação e as considerações das organizadoras.

Bruna Angotti é Doutora e Mestra em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP). Vice-coordenadora do Núcleo de Antropologia do Direito (Nadir) e do Grupo de Pesquisa Mulher, Sociedade e Direitos Humanos da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Professora na graduação em Direito na UPM. Advoga no Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos – Cadhu. Pesquisadora fundadora do Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo (LAUT).

Regina Stela Corrêa Vieira é Doutora e Mestra em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Professora de Direito do Trabalho e da Seguridade Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e do Programa de Pós-Graduação em Direitos Fundamentais da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). Integrante do Núcleo Direito e Democracia do Cebrap.

Participam do livro Ana Flavia Lucas D´Oliveira; Angelo Soares; Anna Barbara Araujo; Bárbara Castro; Daniel Groissman; Elda Coelho de Azevedo Bussinger; Helena Hirata; Helena Pontes dos Santos; Louisa Acciari; Luiza Batista Pereira; Mariana Mazzini Marcondes; Nadya Araujo Guimarães; Paula Gabriela de Souza Pinto; Pedro Augusto Gravatá Nicoli; Renata (Tica) Moreno e Schirlei do Carmo.

 

As falas representam a pluralidade dos discursos e de visões e trazendo um panorama amplo dos debates relacionados ao cuidado que foram propostos nos seis movimentos: Trabalho e Cuidado; Cuidado em Movimento; Trabalhadoras Domésticas; Cuidado e Profissionais de Saúde; Cuidado Infantil e Políticas Públicas; Cuidado de pessoas idosas.

 Na primeira parte, Trabalho e Cuidado, Nadya Araujo Guimarães aborda Os Múltiplos fios que tecem as relações de cuidado. Helena Hirata traz Cuidado: teorias e prática, enquanto Angelo Soares reflete sobre O trabalho de cuidar e as emoções em tempo de Covid-19 e Bárbara Castro fala sobre A falta e o excesso de trabalho na vida das mulheres. Na sequência, o Cuidado em Movimento envolve entrevistas que abordam questões de gênero, como Mulheres, violência e pandemia, de Amelinha Teles e Uma multidão de mulheres trabalhadoras exaustas, umas mais do que as outras, de Helena Pontes dos Santos. Inclui-se, ainda, Cuidar mudar as coisas – Reconhecendo e transformando a partir do trabalho de cuidado LGBT+ de Pedro Augusto Gravatá Nicoli e Cuidar da vida na pandemia: trabalhos, desigualdades e sobrecargas (in) visíveis de Renata (Tica) Moreno. O terceiro tema tratado no podcast Cuidar, Verbo Coletivo são as Trabalhadoras Domésticas na pandemia e a atuação da Fenatrad, entrevista com Luiza Batista Pereira e Uma luta que não pode parar nunca: as trabalhadoras domésticas defendem seus direitos em tempos de pandemia com Louisa Acciari.

 Cuidado com os profissionais de saúde é tema dos programas onde Ana Flavia Lucas D´Oliveira fala sobre o Cuidado, saúde e violência na pandemia; Elda Coelho de Azevedo Bussinger reflete sobre a Enfermagem agora! Enfermagem já! E Paula Gabriela de Souza Pinto traz Reflexões sobre saúde mental, pandemia e autocuidado.  Já o Cuidado Infantil e Políticas Públicas vêm a tona na entrevista concedida por Mariana Mazzini Marcondes a respeito de Gênero, cuidado e creches. Por outro lado, Schirlei do Carmo relata o Cuidado infantil da pandemia: perspectivas de uma educadora da periferia de São Paulo. Finalmente, o Cuidado de pessoas idosas. Daniel Groissman e Anna Barbara Araujo fazem as seguintes reflexões, respectivamente: Quem cuida de quem cuida? As cuidadoras de pessoa idosa diante da pandemia de Covid-19 e o  Cuidado de idosos e emoções na pandemia. De acordo com o relato das professoras, já nas considerações finais da publicação:

 

O conteúdo do podcast passou a ser indicado em disciplinas universitárias e grupos de pesquisa. A Profa. Luciana Gross, da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, inseriu o podcast como referência básica para participantes de um grupo de pesquisa que ela coordena, chamado Direito e Gênero. A Profa. Patrícia Tuma Martins Bertolin, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, usa o material em suas aulas da pós-graduação em Direito. O Prof. Pedro Nicoli, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indica o podcast na disciplina Tópicos em Direito do Trabalho – Trabalho doméstico, reprodução social, cuidado e direitos e no grupo de estudos do Núcleo Jurídico de Diversidade Sexual e Gênero (Diverso UFMG). Também na UFMG, a Profa. Anna Paula Vencato, da Faculdade de Educação, inseriu episódios na disciplina da pós-graduação Processos e discursos educacionais III – Gênero e Cuidado. Além disso, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Regina incorporou dois episódios como atividades assíncronas na disciplina Direito do Trabalho na Pandemia, ofertada à graduação em Direito em 2021. Também soubemos do uso do podcast por coletivos do movimento social.

 

Isso reforça a importância de se manter o debate vivo, de se abordar temas da atualidade em comunhão com as áreas específicas do conhecimento. Uma expressão linguística transformada em chamada para uma campanha de saúde fez movimentar universidades públicas e privadas por meio de um programa de entrevistas com abordagem plural. Questionadas sobre a continuidade do projeto, elas preferem aproveitar, por enquanto a experiência potente que tiveram.