É comum lermos, vermos, ouvirmos no noticiário internacional falar sobre guerra ou outro conflito no Afeganistão. E nos chegam poucas informações a este respeito, além das mortes. Confundimos os nomes das guerrilhas, das religiões e mesmo as fronteiras envolvidas. Atualmente recebemos a notícia de que o Talibã voltou ao controle do país e expulsaram os americanos que estavam em seu território desde os ataques ás torres gêmeas, em 2001. Por coincidência, a edição deste mês da revista Superinteressante trouxe a reportagem de Bruno Vaiano que traz esclarecimentos sobre isso. Nós vamos tentar resumir em poucas linhas.

Tudo começa com a localização. O Afeganistão fica na Ásia Meridional, é mais ou menos do tamanho de Minas Gerais e também não alcança o mar. Faz fronteira com Irã, Paquistão, Uzbequistão, Turcomenistão, Tadjiquistão e com a China.

O fato de os nomes dos países desta região terminarem da mesma forma tem uma explicação etimológica. O sufixo stan, que deu origem, na língua portuguesa, ao verbo estar, nas línguas indo-europeias do centro da Ásia, na pré-história, tinham o sentido de lugar onde está ou terra de. Neste sentido, o Afeganistão seria a terra de afegãos.

No entanto, os Pashtuns, falantes do pashto, que pertence ao mesmo ramo linguístico do persa – que teria como tradução afegãos –  é apenas uma das etnias que convive neste território. Hoje eles representam 40% da população e estão mais ao sul do país, na fronteira com o Paquistão. O dari é a segunda língua oficial, falada pelos Tadjiques, que estão ao norte, próximo à fronteira com o Tadjiquistão e são cerca de 30% da população. E ainda há uma terceira etnia majoritária, os Hazaras, que são descendentes dos mongóis, que tomaram a Ásia no século XIII sob a liderança de Gengis Khan. Habitam nas montanhas e têm os olhos puxados. Aqui começa o conflito entre xiitas (Hazaras) e sunitas (Pashtuns). Do texto original destacamos:

 

O atual território afegão pertenceu por séculos aos persas e depois foi conquistado por Alexandre. Com o colapso da Macedônia, floresceu uma cultura que misturava traços gregos e budistas (dois gigantescos budas de pedra, que datavam do século VII, foram implodidos pelo Talibã em 2001 por serem estátua de outra fé. Foi um dos maiores atentados realizados contra um patrimônio da Unesco). Mais tarde viriam os califados árabes medievais, que trouxeram para a região a fé islâmica.

 

O Afeganistão que conhecemos hoje nasceu em 1747, “fundado” pelo líder Pashtun Amade Xá Durrami, que uniu as etnias em um só império monárquico independente. No século XIX, o país representava o território neutro na Guerra de Jogo – entre o Império Russo, que controlava o sul e o Império Britânico pelo controlava o norte da Ásia.

Em 1973 a monarquia é derrubada por um golpe do príncipe Daoud Khan sobre o Rei Zahir Shah, porém a nova “república” durou pouco tempo. Em 1978, o Afeganistão une-se à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Isso durou dez anos de golpes dentro do golpes e conflitos locais. Enquanto isso, no interior do país, líderes tribais de diversas etnias organizaram guerrilhas armadas.

 

Relação com os Estados Unidos

A Jihad (guerra santa) contra os invasores infiéis é uma recomendação do Corão (Bíblia islâmica) Pensando nisso, o governo norte-americano viu neste conflito entre “afegãos” e soviéticos, uma possibilidade de vingança. Os soviéticos armaram os vietnamitas, quando em guerra com os Estados Unidos, o que possibilitou a eles saírem-se vencedores. Da mesma forma, bastaria aos americanos financiar esta guerra santa contra os mesmos soviéticos. Para tanto, os Estados Unidos uniram-se ao presidente islâmico paquistanês Muhammad Zia-Haq, que não gostava dos soviéticos ateus e queria fornecer dinheiro e armas aos jihadistas.

Os jihadistas eram conhecidos também como mujihadin e tinham também outras fontes de “financiamento”. Uma delas era Osama Bin Laden, herdeiro de um rico empresário saudita, fundador da Al-Qaeda e responsável por recrutar voluntários no mundo árabe para ajudar neste combate aos soviéticos. Osama propagava o wahabismo, que seria uma vertente ultrarradical do islamismo sunita. O que inspirou o Estado Islâmico. Esta união de forças expulsou finalmente os soviéticos em 1989. Pelo feito, Bin Laden passou a ser exaltado por parte da imprensa Ocidental.

Porém, na década seguinte, Osama Bin Laden desentende-se com os americanos. Em 1991, tropas americanas reforçam a fronteira entre o Iraque e a Arábia Saudita, em favor dos árabes. Porém, tráfego de não-fiéis próximo à terra santa para a fé islâmica foi visto como provocação. Em resposta a isso, a partir de 1998, embaixada americanas passaram a ser bombardeadas pela Al-Qaeda. Isso culminaria com os ataques às torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001.

 

Talibã

Os estudantes – tradução de talibã – governaram o Afeganistão entre 1996 e 2001, após o vácuo de poder deixado pelos soviéticos. Eles vivem de dízimo e controlam o que corresponde aos seminários católicos, só que formadores de clérigos islâmicos. E o respeito à religião os tornam mais sólidos que as guerrilhas comuns. Hoje. Mesmo violentos e retrógrados, são vistos como uma alternativa à invasão estrangeira. Há ainda outro elemento importante. Desde que os conflitos se intensificaram, em 1978, o país se tornou uma potência no narcotráfico.

 

A região fértil em torno do Rio Helmand abriga as maiores plantações de papoula do mundo – planta da qual se extrai o ópio, matéria-prima da heroína. O Afeganistão forneceu mais de 80% dos opiáceos ilegais do planeta entre 2015 e 2020, de acordo com a ONU. A droga emprega 590 mil afegãos. Trata-se da maior fonte de renda do país, e as exportações levam de brinde a metanfetamina – já que a efedrina, um importante ingrediente dos cristais de Breaking Bad, também é extraída de uma planta típica do país.

 

E a papoula é a principal fonte de sustento do Talibã. Em 2018, de acordo cm a reportagem, a receita anual com a taxação da papoula foi de US$1,5 bilhão (um bilhão e meio de dólares). Além disso, o cultivo da planta garante boa parte dos empregos e, com isso, a satisfação da população. E a realidade atual mostra que os conflitos não vão parar por aqui. Depois de 20 anos, o Talibã conseguiu expulsar os americanos do território “afegão”. Porém, no centro do país emerge outra potência, o Estado Islâmico, que promove ataques suicidas quando se percebe acuado.