Se você está acompanhando, ou se pelo menos passou os olhos em alguma das provas da Paralimpíada, que encerra neste domingo (05), em Tóquio (JAP), deve ter ficado, no mínimo, intrigado, ou mesmo maravilhado com o que viu. A nossa tendência é falar, inicialmente, em superação. Mas não é só isso. Para a maior parte, se não a totalidade dos atletas, é possível se atribuir esta característica. Patrocínio, escolhas, jornadas duplas, triplas, viagens…. E quando este atleta é deficiente? Sequer conseguimos imaginar como é esta rotina.

Ficamos curiosos em saber como é feito o treinamento desses atletas, como se formam professores ou treinadores que vão trabalhar com estas modalidades. Pensando nisso, conversamos então com o professor Dagmar Menna Barreto, do curso de Educação Física da Unoesc Joaçaba. Ele nos contou que há uma tradição, nos cursos, não só em Joaçaba, de se oferecer, disciplinas relacionadas à atividade física e ao esporte para pessoas com deficiência:

 

A disciplina prepara os professores de Educação Física para que tenham uma atuação tanto na escola quanto na preparação de atletas. Em geral, independe se o curso é de Licenciatura ou Bacharelado. Licenciatura prepara mais para o ambiente escolar e o Bacharelado, ele prepara mais na perspectiva de formação de técnicos. Não dá para dizer que é formação de atletas, mas sim, que a gente experimenta, junto com os alunos, diferentes modalidades.

 

A formação profissional do educador físico tem sempre, como pano de fundo, a questão da inclusão, conta-nos o professor. Quando se pensa na disciplina de Educação Física Adaptada, o professor dá, neste momento, orientações gerais sobre as diferentes modalidades que uma pessoa com deficiência possa fazer, as perspectivas que se tem para quando estiverem lá na sua atividade profissional, para que possam atender da melhor maneira possível as pessoas que tenham alguma característica de deficiência.

 

Aline Rocha, paratleta

 

Aqui na Unoesc Joaçaba nós tivemos uma aluna, a Aline Rocha, que é uma atleta paralímpica. Ela participou dos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016 (Rio de Janeiro) e dos Jogos Paralímpicos de Inverno de 2018 (PyeongChang). A Aline é uma atleta cadeirante. Tanto ela quanto o seu treinador, o Fernando Orso, foram nossos alunos.

 

Dagmar relata que Fernando acabou se tornando um treinador de esportes paralímpicos. Ele começou fazendo o treinamento dela, que é a sua companheira. Chegou a atuar em associações aqui da região. Hoje eles moram em São Caetano do Sul, na região do ABC paulista. Foram em busca de melhores condições de treinamento e da oportunidade de participar de um maior número de competições, o que acabou acontecendo.

 

É importante destacar que nós temos recebido cada vez mais, no Ensino Superior, alunos com algum tipo de deficiência. E isso tem a ver com as políticas de educação inclusiva que, no Estado de Santa Catarina têm sido desenvolvidas desde os anos 1980. E a universidade acabou criando uma política de acessibilidade, uma política de inclusão que permite a gente ter um olhar mais focado nos alunos com algum tipo de deficiência.

Agenda dos últimos dias de competição das Paralimpíadas de Tóquio 2020

 

A mídia passou a dar visibilidade a estes esportes adaptados, ou paraesportes. Prova disso é que podemos acompanhar esta última edição da Paralimpíada ao vivo, por canais de TV fechada, com comentários, perspectivas de atuação. Além de a equipe brasileira estar se destacando a cada nova competição. É importante pensar que esse movimento indica que essas competições vêm despertando também o interesse comercial das grandes empresas patrocinadoras. Isso faz girar o ciclo do esporte. Mais patrocínio possibilita mais investimento no esporte. Isso faz aumentar a demanda por treinadores, aguça a curiosidade e o desejo de outros atletas competirem. E assim, o paraesporte vem crescendo a cada ano.

 

A participação e a transmissão desses jogos permitem a visibilidade e potencializa a possibilidade de mais alunos, mais pessoas com deficiência se interessarem na prática esportiva. Pro profissional de Educação Física tem sido sim um espaço de mercado de trabalho. Eu tenho visto hoje em dia são mais profissionais se dedicando a esta parte do treinamento desportivo.

 

Em contramão a esta tendência, o professor Dagmar alerta que muitas escolas ainda não contam com uma estrutura suficiente ou adequada para que alunos com deficiência possam fazer as aulas de Educação Física. Desde quadras que não estão em locais acessíveis, o próprio material de que é feito os espaços de Educação Física nem sempre são adequados. Há muito o que se fazer.

 

Foge um pouco do espaço das escolas, mas tem a perspectiva em clubes, em fundações municipais de esporte, identificando, sim, o esporte paralímpico como um espaço interessante de trabalho. Então, cada vez mais nós estamos tendo mais cursos de especialização voltado para esse público. E o número de pessoas com deficiência que hoje em dia praticam modalidades esportivas também aumentou significativamente.

 

O que é instigante, de acordo com Dagmar, é que o professor de Educação Física possa pensar em atividades esportivas – seja no ambiente da escola, seja no ambiente de um clube ou de uma associação, mesmo no esporte comunitário – ou modalidades esportivas que mais alunos possam participar. Mais pessoas com deficiência possam também participar em pé de igualdade com pessoas que não tenham deficiência.