Além de todos os fatos que vimos expondo por aqui, os dilemas e as angústias que a pandemia nos trouxe, as alterações nas formas de trabalho, as novidades que já são realidades em cada área do conhecimento, há ainda um outro fator curioso. Instituições tradicionais na sociedade brasileira vivem também com o fato de precisarem se recriar ou alterar os seus velhos métodos para continuarem as suas histórias. É o caso da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Uma das instituições mais tradicionais do país, a ABL vive hoje dois grandes impasses. O primeiro: desde março de 2020, os membros da Academia, chamados de imortais, não se reúnem, por causa da Pandemia do Novo Coronavírus. No entanto, está programada para agosto a primeira sessão virtual da história dessa instituição secular. O segundo impasse se justifica pelo fato de, neste tempo em que não se reúnem, quatro imortais faleceram: o jornalista Murilo Mello Filho (1928-2020); o diplomata Affonso Arinos de Mello Franco (1930-2020); o crítico literário Alfredo Bosi (1936-2021) e o ex-vice-presidente da República, o professor Marco Maciel ((1940-2021).

Para que as cadeiras sejam reocupadas, antes, é necessário que se realize a Sessão da Saudade, data em que se abre a vaga. Este deve ser o motivo principal da reunião virtual, prevista para agosto. Depois disso, por dois meses, pode se candidatar à vaga qualquer brasileiro nato que tenha publicado obras de reconhecido mérito, em qualquer gênero da literatura. A eleição ocorre por escrutínio secreto.

Como a atual diretoria tem aberto diálogo com a cultura e a língua indígena em seus seminários, a expectativa é a candidatura de Daniel Munduruku, conhecido por suas obras infantojuvenis e pela atuação no movimento indígena brasileiro. Ele é Doutor em educação pela Universidade de São Paulo e Linguística pela Universidade de São Carlos. Outros nomes são especulados, na música, nas artes, no jornalismo. Mas por enquanto, há que se esperar a realização desta sessão histórica.

 

sedes da ABL, no Rio de Janeiro

História

A Academia Brasileira de Letras (ABL) foi fundada em 20 de julho de 1897, seguindo os moldes da Academia Francesa. Seu primeiro presidente foi Machado de Assis. Entre os 40 membros desta primeira “formação” ainda estavam Olavo Bilac, José do Patrocínio, Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, entre outros.

A primeira sede da entidade, no Rio de Janeiro, foi uma doação do governo francês, uma réplica do Trianon de Versalles, por aqui ficou conhecida como Petit Trianon. O prédio foi construído para abrigar a bandeira da França durante as comemorações do centenário da Independência do Brasil (1822). Hoje é o local onde acontecem as reuniões regulares, as sessões solenes comemorativas e aonde acontecem as posses dos novos membros.

As solenidades ainda guardam os velhos hábitos da Velha República. Os imortais homens vestem o fardão verde escuro com folhas bordadas a ouro e um chapéu de veludo negro com plumas brancas e uma espada. As mulheres usam um longo e reto vestido de crepe – com os mesmos detalhes e cores da vestimenta masculina. Este paramento é, por tradição, uma doação do estado da federação onde nasceu o imortal.

A Casa de Machado de Assis, como é conhecida a ABL, ainda guarda os objetos pessoais do escritor, que foi o seu primeiro presidente. Estão lá expostos lá os livros da sua biblioteca, a escrivaninha onde trabalhava, além do seu retrato.

Em 1979, no aniversário de fundação da instituição, foi inaugurado o Palácio Austregésilo de Athayde, ao lado do Petit Trianon. É lá que acontecem os eventos culturais e onde está localizada a Biblioteca Rodolfo Garcia.

Todas as quintas-feiras ficam reservadas para a reunião dos acadêmicos, no Salão de Chá, mantendo a antiga tradição. Para este momento, estarão presentes, obrigatoriamente, os membros residentes no Rio de Janeiro e aqueles outros que puderem comparecer.

 

Tarefas da ABL

A principal tarefa da Academia Brasileira de Letras é a de guardar a língua nacional. Nesse sentido, organiza o vocabulário ortográfico da Língua Portuguesa, publica em sua revista, obras de acadêmicos e prepara a publicação de um dicionário.

No portal da ABL, é possível se realizar uma consulta ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), onde se encontra mais de 381 mil verbetes, as respectivas classificações gramaticais e outras informações, conforme descrito no Acordo Ortográfico.

Uma vez por semana, a ABL publica uma palavra, expressão que passou a ter uso corrente na Língua Portuguesa. A palavra desta semana, por exemplo, é Ciclável – 1.Que se destina ou é adequado ao trânsito de bicicletas e veículos similares; próprio para a circulação desses veículos (diz-se de rota, faixa, via, percurso, cidade, bairro, etc.).2. Referente ao trânsito de bicicletas e veículos similares. Seguindo o link que está na palavra, você pode conhecer exemplos de uso.

 

Podcast da ABL

Nesta terça-feira (22), os acadêmicos Antônio Torres e Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça prestarão uma homenagem aos cem anos de falecimento do acadêmico João do Rio. O evento é parte da série Efemérides Acadêmicas.

Na sessão de Podcasts da ABL, pode-se saber mais sobre o Centenário de Celso Furtado, João Cabral de Mello Netto e Carlos Castello Branco, na Série Centenários. Além de outras séries como a Pensando o Novo Normal; Como e Por que ler os Clássicos; e Meninos, Eu Li.