Por estarmos vivenciando uma pandemia, o que implica em desdobramentos que podem influenciar em questões políticas, econômicas e sociais, as pesquisas e a própria aplicabilidade da vacina aconteceram em um tempo recorde. Já em setembro vibrávamos com a possibilidade de termos uma vacina. Porém, consideramos importante voltarmos a esse assunto, agora que elas já estão imunizando milhares de pessoas em todo o planeta. Há muita desinformação, notícias falsas (Fake News) e nós precisamos saber o que exatamente significa podermos nos vacinar. Para isso, voltamos a procurar o professor Everton Boff, coordenador do curso de Farmácia da Unoesc São Miguel do Oeste, para falarmos sobre questões que envolvem a fabricação e o uso de vacinas que visam a proteção contra a Covid-19. Vacina, sim!

 

TEMPO RECORDE

 

O professor Everton nos indica que, apesar da velocidade, não significa que todos os medicamentos e vacinas que serão desenvolvidos a partir de agora obterão tamanho incentivo para poderem ser desenvolvidos em um tempo menor que o habitual.

 

De qualquer forma, agora sabemos que é possível. Dependerá de outros fatores a velocidade que será imprimida para o desenvolvimento de outras vacinas e medicamentos quando vencermos a pandemia.

 

É importante dizer, segundo ele, que o fato de o desenvolvimento das pesquisas clínicas para muitas vacinas contra a Covid-19 terem sido efetuadas e concluídas em tempo recorde, não implica negar a seriedade ou o cumprimento de qualquer uma das etapas fundamentais para isso. Há um rigor científico que deve ser respeitado. E não foi diferente nesse caso.

 

Todas as vacinas, com aprovação em diversos países, incluindo o Brasil, cumpriram todas as exigências em todas as fases das pesquisas clínicas (1, 2 e 3), por isso são confiáveis e possuem o aval positivo dos órgãos reguladores, no caso do Brasil a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

 

PESQUISAS

 

Durante o desenvolvimento, novas vacinas e novos medicamentos passam por três fases, duas pré-clínicas (in vitro e em animais de laboratório) e uma terceira fase clínica (em humanos). Trata-se de uma exigência legal no mundo científico. Para dar respostas frente à grande diversidade populacional que induz a diferentes respostas orgânicas a medicamentos e vacinas, a fase três (pesquisa clínica).

 

A fase três é a de maior importância, pois nessa fase os testes buscam abranger uma maior diversidade genética, comportamental, cultural, hormonal, a presença ou não de outras comorbidades, o uso concomitante de outros medicamentos e tantos outros fatores que devem ser considerados quando se buscam respostas concretas, para um uso seguro e racional para a grande variedade de organismos (e vidas) que temos na população mundial.

 

Ao nos vacinarmos, estaremos nos protegendo e ajudando a proteger outras pessoas. A vacina ativa nosso sistema imunológico, deixando nossas defesas aptas a nos defender de um agressor biológico que pode causar inúmeros danos ao organismo.

 

COMO FUNCIONA A VACINA

 

Quando o agente agressor (na imunologia chamado de antígeno) invadir o organismo, as defesas já estarão prontas para combater esse invasor, eliminando as chances de ele dominar e adoecer esse indivíduo. Essas defesas são nossos anticorpos.  Por outro lado, no caso de alguém não estar vacinado, o invasor (por exemplo, o vírus da Covid-19) invade e domina esse organismo, pois não há tempo hábil de ativação do sistema imunológico para impedir a proliferação (replicação) viral, adoecendo e agravando o estado de doença. Assim, as vacinas podem impedir a manifestação da infecção viral, não permitindo que o indivíduo vacinado seja um transmissor do vírus.

 

Em caso de adoecimento, os sintomas são muito mais brandos, reduzindo consideravelmente a possibilidade de agravamento da infecção e de seus sintomas.

 

PADRÕES DIFERENTES

 

Ouvimos falar em diferentes padrões para a aplicação das diversas vacinas. Algumas devem ser aplicadas em duas doses, outras em apenas uma, além do intervalo entre a primeira e a segunda aplicação, quando é o caso. O professor Everton explica que essas diferenças estão baseadas no tipo de tecnologia envolvida e também no mecanismo de ação que a vacina possui para estimular o sistema imunológico do indivíduo vacinado na produção de seus anticorpos.

 

Então, esses dois fatores – a tecnologia e o mecanismo de ação da vacina – determinam a temperatura de conservação, o número de doses e nos casos de necessidade de mais de uma dose e o intervalo para a realização das mesmas.

 

MUTAÇÕES

 

O vírus é um organismo que pode sofrer mutação, sendo assim, conforme foram surgindo novas variantes, elas foram estudadas quanto à ocorrência de maior ou menor agravamento da doença (patogenia), foram sendo identificadas também a maior ou menor transmissão e possibilidades de desencadeamento de outros sintomas e/ou atingir outros sistemas orgânicos.

 

Aliado a isso, devido a vacinação já estar ocorrendo em todo mundo, as vacinas também, de maneira imediata, foram sendo testadas para as novas variantes. Até o momento, as atuais vacinas que estão em utilização, mostram-se eficazes na prevenção de infecções causadas pelas novas variantes da Covid-19.

 

EFICÁCIA

 

A eficácia de uma vacinação significa em porcentagem o quanto está reduzida a chance de contrair uma infecção pelo agente causal em questão. Trata-se de um cálculo matemático que é elaborado com os resultados dos testes clínicos.

 

Durante as pesquisas, são considerados dois grupos populacionais, um deles recebe placebo (substâncias inertes) e o outro, a vacina que está sendo testada. Mede-se o resultado obtido entre os indivíduos que foram infectados em cada grupo mediante o nível de exposição ao vírus. O resultado deste cálculo é expresso em porcentagem, relatando o quanto a vacina possui de eficácia.

 

VACINAS DIFERENTES

 

Há diferentes formas de ativar o nosso sistema imunológico para que ele combata, nesse caso, a Covid-19. Existem várias maneiras de ativar as defesas do organismo, todas com especificidade para destruição do vírus.

 

Dentre as várias técnicas que são utilizadas como mecanismo de ação das vacinas, tem-se vacinas com o vírus inativado ou atenuado, de vetor viral, baseadas em proteínas, de RNA e DNA entre outras.

 

FABRICAÇÃO

 

O Brasil possui dois centros de pesquisa que produzem vacinas – a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que é ligada ao Ministério da Saúde, e o Instituto Butantan, pertencente ao governo do Estado de São Paulo. O Insumo Farmacêutico Ativo (IFA), porém, não é fabricado fora do Brasil. O Instituto Butantan importa da China o insumo necessário para a fabricação da Coronavac. Já o IFA necessário para o desenvolvimento da vacina do laboratório Astra/Zeneca, desenvolvido pela Universidade de Oxford, é envasado na Fiocruz. A ANVISA aprovou também, além dessas, o uso da vacina desenvolvida pelo laboratório Pfizer, que deve chegar ao Brasil já pronta para o uso, vinda da Bélgica.

 

Não há incentivo governamental para a fabricação de vacinas em outros lugares que não sejam o Instituto Butantan e a Fiocruz. A intenção, em vez disso, é comprar vacinas que já cheguem prontas para a aplicação, como é o caso da Pfizer.

 

Dessa forma, vemos que a maioria das vacinas são desenvolvidas pelo setor privado, devido a questões de patentes. As universidades podem ser incluídas para buscar novos dados, novas pesquisas e ainda, como parceiras de laboratórios públicos ou privados, para que se tenham novas vacinas, novas informações e dados sobre as já existentes e que estão em uso.