Cuidado com a Cuca que a Cuca te pega, e pega daqui e pega de lá…”Só de pensar neste verso da composição de Dori Caymmi e Geraldo Casé, muitas crianças – de idade ou de espírito – já se arrepiam de medo da personagem imortalizada por Monteiro Lobato em O Sítio do Picapau Amarelo – que também foi transformada em série televisiva.

E se eu te contar que a Cuca está de volta? Pois é. O diretor de cinema Carlos Saldanha – diretor de A Era do Gelo 2 (2006) e (2009), codiretor de A Era do Gelo (2002) e Carros (2005) entre outras, resolveu mesclar personagens do mundo real com personagens do folclore brasileiro. O resultado está em Cidade Invisível, série brasileira produzida pela Netflix que estreou a primeira temporada – com sete episódios – no dia 05 de fevereiro e já faz sucesso em mais de 40 países.

Eric Alves (Marco Pigossi) é um detetive da polícia ambiental. Dedicado ao trabalho, ele deixa de acompanhar a esposa, a antropóloga Gabriela (Julia Konrad) a uma festa junina, na vila de pescadores onde ela desenvolve o seu trabalho. O local é incendiado, devido a interesses de uma construtora pelas terras da floresta. Ela morre. Porém a sua morte guarda características que vão além do incêndio. Eles tem uma filha criança, Luna (Manu Dieguez).

Logo depois, um boto-rosa surge morto à beira-mar. O policial transporta o corpo do animal para a perícia, porém, ao abrir o seu porta-malas, se depara com um corpo humano morto. As mortes acabam se encontrando no desenvolver da trama.

Porém, o mais interessante desta série é a forma como os personagens folclóricos são encontrados dentro destes reais. Não vamos contar a história toda para não perder a graça. Mas podemos adiantar alguma coisa.

Basta saber que a Cuca, ou Inês (Alessandra Negrini) é a dona de um bar localizado em uma região degradada. Tutu – ou Tutu Marambá – é um amigo fiel que a ajuda a resolver as questões mais difíceis, eliminando quem se atravessa no caminho deles. Quem canta no bar é Camila (Jéssica Córes) ou Iara, a sereia.  Neste ambiente marginalizado pela cidade, encontram-se boa parte dos outros seres deste universo folclórico, como o Saci-Pererê, o Curupira e o Corpo-Seco. Todos os personagens se cruzam e influenciam no desenrolar da história. A seguir, vamos relembrar estas figuras folclóricas.

 

Cuca

A Cuca é um dos personagens mais conhecidos do Folclores Brasileiro. Monteiro Lobato tornou-a popular em forma de uma Jacaré loira, com garras enormes que pegava as crianças malcriadas quando os pais não estavam em casa. Ela pode ser encontra, ainda, na cultura brasileira, como uma velha enrugada, de cabelos brancos e corcunda.

Porém, a Cuca é muito mais antiga que a nossa velha conhecida. Na Península Ibérica, ela é conhecida como Coca (ou Coco). Na Espanha, tem formato de dragão; na Galícia, ela saía nas ruas no dia de Corpus Christi para cometer maldades.

Em Cidade Invisível, a personagem de Alessandra Negrini usa a canção de ninas para seduzir suas vítimas (Nana, nenê, que a cuca vem pegar…). Como a figura folclórica não tem um animal a que seja relacionado, a produção resolveu transformá-la em borboleta. Com isso, afasta-a do grupo dos papões e a aproxima do grupo das bruxas.

 

 

Tutu-Marambá

Tutu-Marambá, ou simplesmente Tutu (Jimmy London) é um bicho-papão, assim como a Cuca. A origem deste mito pode ser africana. Seria o irmão do bicho-papão e do Boi-da-cara-preta. No idioma Quimbundo, “tutu” significa “comer”, é de onde vem a palavra quitute. Portanto, Tutu é um devorador. Na série, ele se transforma em porco-do-mato.

Iara

É uma lenda indígena da região do Amazonas. Iara era mais forte que os irmãos e possuía habilidades de guerra. Pela inveja que isso nutria, ela acabou matando a todos. Como castigo, o seu pai, o pajé, a jogou no Rio Solimões.  No entanto, ela foi salva pelos peixes e transformada em entidade em noite de lua cheia. Na série, Iara é Camila (Jéssica Córes), a cantora que encanta no bar de Inês/Cuca.

 

Saci-Pererê

Como a lenda, Issaac (Wesley Guimarães) não tem uma das pernas. Por isso usa uma mecânica. O personagem folclórico é um garoto negro, que usa uma toca vermelha e não larga o cachimbo. Mora na floresta e é conhecido por estar sempre aprontando, enganando alguém.

 

Boto cor-de-rosa

O Boto-cor-de-rosa é mais uma lenda Amazônica. Seu corpo, como da sereia, é metade homem e metade animal. Ele sai do Rio Amazonas nas noites de lua cheia, em datas como festas juninas, para seduzir as mulheres. Normalmente ele assume o corpo de um homem atraente para isso. Depois de engravidar a mulher, ele a deixa. Em Cidade Invisível, ele é Manaus (Vitor Sparapane) e em cima dele se desenvolve boa parte da história.

Curupira

Curupira é uma das lendas mais antigas no Brasil, sendo registrada por José de Anchieta em 1560. Ele é protetor das matas, controlando se o homem tira dela mais do que precisa. Segundo a lenda, ele tem os pés ao contrário, o que confunde os caçadores e os invasores da mata. Revelar a sua identidade é contar uma parte interessante da história que se desvenda mais pro final, por isso, deixamos para que você mesmo o conheça.