Vinícius de Moraes (1913-1980) foi um diplomata, poeta, compositor, jornalista e dramaturgo brasileiro. Sua obra trata da vida cotidiana, de observações sobre a vida das pessoas comuns, sobre o amor, o mar, o cenário que contornava a cidade onde vivia, no Rio de Janeiro. A partir da observação do mito de Orfeu, o dramaturgo montou um espetáculo chamado  Orfeu da Conceição (1954), trazendo o mito para a realidade das favelas do Rio de Janeiro.

 

Esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultua deste país, – melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca .                                         (Vinícius de Moraes – a propósito de Orfeu da Conceição)

 

 

O poetinha contou com uma ajuda de profissionais reconhecidos nas suas habilidades, para a primeira apresentação, em 09 de maio de 1956. A cenografia foi montada por Oscar Niemayer, as composições das músicas que acompanhavam o texto foram de autoria de Antônio Carlos Jobim. No violão, Luiz Bonfá, sob a interpretação de Haroldo Costa. Completavam o time de técnicos, o diretor Leo Jusi, a figurinista Lila de Moraes, a coreógrafa Lina de Luca e o pintor Carlos Scliar.

A peça foi um sucesso e acabou chamando a atenção do diretor de cinema francês Marcel Camus, que produziu, em uma parceria França, Itália e Brasil, o filme Orfeu do Carnaval. Este foi o provável responsável pela formação do imaginário mundial a respeito do Brasil.

 

Orfeu do Carnaval

Na produção cinematográfica Orfeu do Carnaval (França. Itália, Brasil, 1959), Orfeu e Eurídice se conhecem durante o carnaval, no Rio de Janeiro e se apaixonam. Orfeu, porém, tem uma noiva, que é ciumenta. A lenda de Orfeu diz que o amor é acompanhado da morte. Ele será capaz de tudo para salvar o seu amor.

O diretor francês, Marcel Camus, se inspirou na peça de Vinícius de Moraes para fazer o filme, misturando o cotidiano das pessoas que moram na favela com o mito de Eurídice e Orfeu. O filme rendeu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes. Foi o primeiro filme a mostrar uma imagem bonita do negro, sem estereótipos ou preconceitos. O elenco foi formado por 45 atores negros. O ex-jogador de futebol do Fluminense, Breno Mello foi o escolhido para viver Orfeu. A bailarina inglesa Gypsi Marpessa (Marpessa Dawn) interpretou Eurídice.

 

Orfeu (1999)

Quatro décadas depois da encenação, a peça de Vinícius de Moraes volta ao cinema. Orfeu (1999) foi dirigido por Cacá Diegues e contou com um elenco liderado pelo cantor Tony Garrido (Orfeu) e pela atriz Patrícia França (Eurídice). Nesta versão, a trilha sonora foi composta por Caetano Veloso.

Desta vez, o enredo envolve o universo de uma escola de samba, de onde Orfeu é o mais famoso compositor, Ele conhece a sua amada neste universo, por ela se apaixona e este amor, continua envolvendo a morte. Para saber mais, assista aos filmes ou leia a peça de Vinícius de Moraes através dos links disponíveis em seus nomes e tire as suas próprias conclusões.

 

O Mito de Orfeu e Eurídice

 

Orfeu era filho de Apolo, o deus música e das artes, e de Clio (Calíope), musa da poesia. Com isso, ele tinha um dom especial para a música. Seu talento comovia aqueles que o ouviam tocar a sua lira – deuses e mortais.

Acompanhando os argonautas em busca do Velocino de Ouro, eles foram confrontados por sereias que tentavam atraí-los com seu canto para que pudessem ser devorados por elas. Porém, Orfeu, ao tocar a sua música, neutralizava a delas, e assim sobreviveram. Apenas um dos marinheiros se deixou atrair pelo canto das sereias e morreu.

Eurídice era uma ninfa muito bonita. Na volta da viagem, Orfeu se apaixonou ao ver a imagem dela refletida na água. Os dois se amavam muito e viviam felizes em seu castelo. Um dia, ela voltou à mata, pois era uma ninfa e sua ligação com a natureza era inegável. Acabou morrendo ao ser picada por uma cobra.

Orfeu desesperou-se e tentou, com seu canto, reanimar sua amada. Isso comoveu Perséfones, a deusa do Inferno, que permitiu que ele a levasse de volta para o mundo dos vivos. A única condição era que, no caminho, Orfeu fosse na frente e não olhasse para Eurídice, que iria atrás, até que a luz do sol os tocasse por completo.

Temendo que atrás dele estivesse vindo um demônio, depois de ter saído da gruta, olhou para trás para contemplar sua amada. Faltava apenas um pé para que todo o corpo de Eurídice tivesse coberto pelo sol. Assim, ela desapareceu e voltou para sempre para o mundo dos mortos.

Nada consolava o músico, que nunca mais viu a sua amada. Seu canto encantou até mesmo os deuses. E as selvagens mênades se apaixonaram por seu canto. Mas ele só queria Eurídice. Como vingança, os seres selvagens o mataram e espalharam os restos por todos os lados. Assim, os amantes puderam voltar a ficar juntos. E o canto de Orfeu ainda é ouvido nos bosques e prados.