É importante pensar como nossa vida foi transformada pelas redes sociais. Na era da necessidade básica por demonstrar a todos o quanto somos felizes, amados, aparentemente sem muitos defeitos… comercializamo-nos em função da necessidade do mercado da beleza, do sucesso e outras coisas “líquidas” (Zygmunt Bauman). É interessante sentir a necessidade de estar constantemente conectado a algum dispositivo que te leve além da própria realidade, fazendo com que o dia fique melhor pelo simples fato de ter obtido algumas curtidas num post sobre “o que comi no café da manhã”.

O Homem, em sua difícil trajetória pelos tempos, desenvolveu inúmeras habilidades de sobrevivência, estimuladas pelo medo de não mais existir, de morrer, em outras palavras.

Luxo para poucos

Hoje, a nossa não-existência está muito mais relacionada ao alheamento de algum perfil na internet, do que na própria morte em si. Logo, quando você decide encerrar sua conta no Facebook, por exemplo, observa-se uma comoção um tanto generalizada, meio fúnebre, de pessoas que chegam e afirmam “… mas se você apagar o Face, vai perder todos os seus amigos!”. Eita! Sem falar que provavelmente você deixará de ser especial, bonito, feliz e terá uma existência um tanto vazia, sem muita interação, sua popularidade passará por um processo de falência: sem minha rede social eu “não-sou”. Penso que Descartes (filósofo, físico e matemático francês), em uma visão contemporânea das coisas, aceitaria a ideia de “Posto, logo existo”.

Esses dias, li um texto sobre um restaurante proibir o uso de celular durante as refeições, para gerar uma interação mais humanizada entre os clientes, que, até comendo, não largam seu Smartphone. O mais legal é que este restaurante assumiu com isso uma postura de “luxo”, segundo o autor do texto. Sim! A interação física entre pessoas, compartilhando os acontecimentos do dia, fazendo declarações amorosas, comentando sobre o gosto da refeição é uma “questão de refinamento, de luxo”.

Chamou-me a atenção justamente o fato de que os valores sociais são tão voláteis que nada pode ser excluído do nosso cardápio. Assim, se você bloqueou alguém no bate-papo, muito cuidado, pois uma hora dessas poderá encontrar essa pessoa e conversar com ela pessoalmente! Nossa, isso será muito difícil, mas você terá o pretexto de que conversar com as pessoas, por mais que estejam bloqueadas no seu mundo virtual, é um luxo. Então tudo bem… é possível suportar o problema, em nome do luxo!

Temos medo do desaparecimento, medo de não sermos mencionados, medo de que nossa importância seja questionada por não termos mais de mil amigos na rede social. Nossa sobrevivência na sociedade virtual, onde tudo pode acontecer, está assumindo uma conotação doentia. Não acredita? Basta então você se propor a ficar uma semana sem celular, uma semana sem postar, comentar, curtir… existir!

Porém, por mais difícil que seja vivenciar relações fisicamente sociais, elas ainda são muito interessantes, pois acredito que o contato humano pode ser bem mais conveniente para se conhecer alguém do que vasculhar um álbum de fotos no Face.

Ainda sou um entusiasta das boas conversas, dos cafés e dos jantares sem celular, mesmo sabendo que, muitas vezes, jantarei sozinho, por não encontrar alguém realmente disposto a conversar, tipo olho no olho…. De fato, como sempre foi neste mundo, o luxo é para poucos.

 

  Tiago de Matia é graduado em Filosofia pela PUC-SP, pós graduado em Comunicação Semiótica pela USP e University of Toronto, no Canadá. Atua como Gerente Geral de Marketing e Comunicação na Unoesc.
  1. Rosicler Felippi Puerari

    Se eu puder escolher…
    gostaria muito de continuar usufruindo destes ‘luxos’ – conversas com amigos presenciais, jantares sem celular, família reunida sem eletrônicos…

    Excelente texto!
    Rosicler

    Boa reflexão…

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